Três famílias de modelos explicam por que uma paridade cai. Cada capítulo trata de uma só, do começo ao fim, com o seu simulador. Leia na ordem: cada geração nasceu para responder ao que a anterior deixava sem explicação.
Uma crise cambial é o abandono forçado de um regime de câmbio, geralmente fixo ou com bandas, depois de uma fuga de capitais que o banco central não consegue mais conter. O sintoma visível é uma desvalorização grande e rápida. O que as teorias disputam é a causa.
A literatura organiza essas teorias em gerações. A classificação é didática, não cronológica rígida: cada geração enfatiza um mecanismo diferente, e crises reais costumam misturar mais de um.
Um governo não consegue, ao mesmo tempo, fixar o câmbio e criar crédito sem parar. A crise é o encontro marcado entre essas duas escolhas, e o mercado sabe a data.
O governo tem déficit e o financia com o banco central. Esse crédito novo aumentaria a quantidade de moeda, mas, com o câmbio fixo, as pessoas trocam o excesso de moeda por dólar no banco central. As reservas vão caindo mês a mês. Antes de acabarem, os especuladores levam o que resta de uma só vez, e o câmbio passa a flutuar.
| Hipótese | Em palavras | Em símbolos |
|---|---|---|
| Câmbio fixo | O banco central compra e vende dólar à paridade enquanto tiver reservas | S = S̄ |
| Crédito doméstico crescente | O déficit é financiado com emissão, a um ritmo constante | Ḋ = μ > 0 |
| Paridade do poder de compra | O nível de preços acompanha o câmbio | P = S·P*, com P* = 1 |
| Paridade descoberta de juros | Capital livre: juro doméstico = externo + depreciação esperada | i = i* + Ṡ/S |
| Demanda por moeda | Cresce com os preços e cai com o juro | M = β·S − α·Ṡ |
| Previsão perfeita | Todos conhecem o modelo e a trajetória do crédito | — |
| Governo passivo | Não sobe juros nem corta gastos para defender a paridade | — |
A demanda por moeda na forma M = β·S − α·Ṡ é a versão linear de Flood e Garber (1984). Ela sai de juntar as três linhas anteriores. O simulador usa exatamente estas equações, com β = 50 e S̄ = 2.
O ativo do banco central tem duas peças: o crédito doméstico (D), por exemplo títulos do Tesouro comprados para financiar o déficit, e as reservas internacionais (R). O passivo é a base monetária (M).
| Ativo | Passivo |
|---|---|
| Crédito doméstico D ↑ (sobe μ por mês) Reservas R ↓ (caem μ por mês) | Base monetária M = D + R constante enquanto o câmbio estiver fixo |
Por que a base fica constante? Com o câmbio fixo, o nível de preços está fixo e o juro é igual ao externo, então a demanda por moeda é um número parado: M̄ = β·S̄. Se o banco central emitir mais do que isso, as pessoas trocam o excesso por dólar no próprio banco central, que vende reservas. Resultado: cada real de crédito novo sai como um real de reservas.
A peça que resolve o modelo é uma pergunta hipotética: se as reservas acabassem agora e o câmbio passasse a flutuar, qual seria o câmbio? Esse é o câmbio sombra, S̃.
Depois do colapso, a base é só crédito doméstico, M = D(t), que continua crescendo μ por mês. O câmbio flutuante que equilibra o mercado monetário é:
S̃(t) = D(t)/β + α·μ/β² · e ele se deprecia a um ritmo constante: dS̃/dt = μ/βNo começo, o câmbio sombra está abaixo da paridade: com muitas reservas, se a moeda flutuasse hoje, ela até se valorizaria. Mas ele sobe todo mês. Em algum momento cruza a paridade.
Resolvendo D(T)/β + αμ/β² = S̄ com D(T) = D₀ + μT e β·S̄ = D₀ + R₀:
O primeiro termo, T* = R₀/μ, é quando as reservas acabariam aos poucos. O segundo, α/β, é a antecipação. Ela existe porque, no dia do colapso, o juro salta e a demanda por moeda despenca de uma vez: o público devolve moeda e leva as reservas restantes, que valem exatamente:
Suponha que todos combinassem esperar as reservas acabarem no mês 10. Nesse dia, o câmbio saltaria de 2,00 para o câmbio sombra daquele mês, 2,16. Como todos sabem disso, comprar dólar um instante antes renderia 8% sem risco nenhum.
Alguém então compra um pouco antes. Outro, antes ainda. A corrida só para quando não sobra salto a ganhar: no ponto em que o câmbio sombra encontra a paridade. É por isso que, no modelo, o câmbio não dá degrau no colapso. O degrau aparece nas reservas.
| Variável | Antes do ataque | No ataque | Depois |
|---|---|---|---|
| Câmbio | Fixo em S̄ | Sem salto | Deprecia μ/β por mês |
| Reservas | Caem μ por mês | Caem αμ/β de uma vez | Zero |
| Base monetária | Constante, M̄ | Cai αμ/β | Cresce com o crédito |
| Juro doméstico | Igual a i* | Salta | i* + depreciação esperada |
| Nível de preços | Estável | Sem salto | Sobe com o câmbio (PPC) |
| Medida | Efeito no modelo | No simulador |
|---|---|---|
| Mais reservas (empréstimo externo) | Adia o ataque; não evita | Mais reservas |
| Parar o crédito (ajuste fiscal) | Evita a crise: a paridade fica sustentável | Ajuste fiscal a tempo |
| Acelerar o crédito | Antecipa o ataque | Déficit maior |
| Subir os juros para defender | Fora do modelo: o governo é passivo. É o tema da 2ª geração | — |
O argumento vem de Salant e Henderson (1978), que estudaram tentativas oficiais de fixar o preço do ouro. Krugman (1979) trouxe a ideia para o câmbio, e Flood e Garber (1984) deram a versão linear usada aqui.
Episódios frequentemente associados à 1ª geração são o México em 1976 e 1982 e a Argentina em 1981: déficits financiados pelo banco central, câmbio fixo ou pré-anunciado e perda contínua de reservas.
Aqui o governo deixa de ser passivo: ele compara o custo de manter a paridade, como juros altos e desemprego, com o benefício de preservar a credibilidade. Se o mercado passa a esperar uma desvalorização, o custo de defender sobe, e a desvalorização pode acontecer justamente porque foi esperada. Capítulo e simulador premium em preparação.
Empresas e bancos endividados em dólar tornam a desvalorização destrutiva: o câmbio sobe, a dívida em moeda nacional incha, o investimento desaba e os bancos quebram. Crise cambial e bancária se alimentam uma da outra. Capítulo e simulador premium em preparação.
| 1ª geração | 2ª geração | 3ª geração | |
|---|---|---|---|
| Referências | Krugman (1979); Flood e Garber (1984) | Obstfeld (1994, 1996) | Krugman (1999) |
| Causa | Crédito cresce com câmbio fixo | Custo × benefício de manter a paridade | Dívida em moeda estrangeira; fragilidade bancária |
| Governo | Passivo | Otimizador | Refém dos balanços privados |
| Papel das expectativas | Antecipam a data | Podem causar a crise | Amplificam o pânico |
| Previsível? | Sim, a data é determinada | Não: equilíbrios múltiplos | Em parte |
| Cura | Ajuste fiscal | Credibilidade, compromisso | Regulação financeira, casamento de moedas |
| Casos associados | México 1976 e 1982; Argentina 1981 | SME, 1992–93 | Ásia, 1997–98 |