Economia internacional · guia

Crises cambiais, crise por crise

Três famílias de modelos explicam por que uma paridade cai. Cada capítulo trata de uma só, do começo ao fim, com o seu simulador. Leia na ordem: cada geração nasceu para responder ao que a anterior deixava sem explicação.

00 Antes de começar: o que é uma crise cambial

Uma crise cambial é o abandono forçado de um regime de câmbio, geralmente fixo ou com bandas, depois de uma fuga de capitais que o banco central não consegue mais conter. O sintoma visível é uma desvalorização grande e rápida. O que as teorias disputam é a causa.

A literatura organiza essas teorias em gerações. A classificação é didática, não cronológica rígida: cada geração enfatiza um mecanismo diferente, e crises reais costumam misturar mais de um.

Capítulo 1 · 1ª geração

01 A crise anunciada

Um governo não consegue, ao mesmo tempo, fixar o câmbio e criar crédito sem parar. A crise é o encontro marcado entre essas duas escolhas, e o mercado sabe a data.

1.1 A história em uma frase

O governo tem déficit e o financia com o banco central. Esse crédito novo aumentaria a quantidade de moeda, mas, com o câmbio fixo, as pessoas trocam o excesso de moeda por dólar no banco central. As reservas vão caindo mês a mês. Antes de acabarem, os especuladores levam o que resta de uma só vez, e o câmbio passa a flutuar.

Por que isso importa para a prova. A 1ª geração é a única em que a crise é inevitável e previsível dados os fundamentos. Guardar essa frase já resolve boa parte dos itens que comparam as gerações.

1.2 As hipóteses do modelo

HipóteseEm palavrasEm símbolos
Câmbio fixoO banco central compra e vende dólar à paridade enquanto tiver reservasS = S̄
Crédito doméstico crescenteO déficit é financiado com emissão, a um ritmo constanteḊ = μ > 0
Paridade do poder de compraO nível de preços acompanha o câmbioP = S·P*, com P* = 1
Paridade descoberta de jurosCapital livre: juro doméstico = externo + depreciação esperadai = i* + Ṡ/S
Demanda por moedaCresce com os preços e cai com o juroM = β·S − α·Ṡ
Previsão perfeitaTodos conhecem o modelo e a trajetória do crédito—
Governo passivoNão sobe juros nem corta gastos para defender a paridade—

A demanda por moeda na forma M = β·S − α·Ṡ é a versão linear de Flood e Garber (1984). Ela sai de juntar as três linhas anteriores. O simulador usa exatamente estas equações, com β = 50 e S̄ = 2.

1.3 A engrenagem: o balanço do banco central

O ativo do banco central tem duas peças: o crédito doméstico (D), por exemplo títulos do Tesouro comprados para financiar o déficit, e as reservas internacionais (R). O passivo é a base monetária (M).

AtivoPassivo
Crédito doméstico D ↑ (sobe μ por mês)
Reservas R ↓ (caem μ por mês)
Base monetária M = D + R
constante enquanto o câmbio estiver fixo

Por que a base fica constante? Com o câmbio fixo, o nível de preços está fixo e o juro é igual ao externo, então a demanda por moeda é um número parado: M̄ = β·S̄. Se o banco central emitir mais do que isso, as pessoas trocam o excesso por dólar no próprio banco central, que vende reservas. Resultado: cada real de crédito novo sai como um real de reservas.

M̄ = D(t) + R(t)  ⇒  Ṙ = −Ḋ = −μ   ·   exemplo: μ = 4 bi/mês, R₀ = 40 bi → reservas durariam 10 meses
No simuladorAbra Déficit financiado com emissão e observe o painel da base monetária: a faixa azul (crédito) sobe, a verde (reservas) encolhe, e a linha preta do total não se mexe até o ataque.

1.4 O câmbio sombra

A peça que resolve o modelo é uma pergunta hipotética: se as reservas acabassem agora e o câmbio passasse a flutuar, qual seria o câmbio? Esse é o câmbio sombra, S̃.

Depois do colapso, a base é só crédito doméstico, M = D(t), que continua crescendo μ por mês. O câmbio flutuante que equilibra o mercado monetário é:

S̃(t) = D(t)/β + α·μ/β²   ·   e ele se deprecia a um ritmo constante: dS̃/dt = μ/β
Primeiro termo: D/βO câmbio que equilibraria a moeda se ninguém esperasse depreciação. Cresce junto com o crédito.
Segundo termo: αμ/β²O efeito do juro. Com a moeda se depreciando, o juro sobe, a demanda por moeda cai e o câmbio precisa ser ainda mais alto para compensar.

No começo, o câmbio sombra está abaixo da paridade: com muitas reservas, se a moeda flutuasse hoje, ela até se valorizaria. Mas ele sobe todo mês. Em algum momento cruza a paridade.

1.5 A data do ataque

  1. Antes de S̃ alcançar S̄, atacar dá prejuízo: quem compra dólar a 2,00 veria o dólar valer menos se a moeda flutuasse.
  2. Depois de S̃ passar de S̄, haveria um lucro certo em comprar dólar a 2,00. Ninguém deixa esse lucro para depois.
  3. Então o ataque acontece exatamente quando S̃(T) = S̄.

Resolvendo D(T)/β + αμ/β² = S̄ com D(T) = D₀ + μT e β·S̄ = D₀ + R₀:

T = R₀/μ − α/β   ·   exemplo: 40/4 − 100/50 = 10 − 2 = mês 8

O primeiro termo, T* = R₀/μ, é quando as reservas acabariam aos poucos. O segundo, α/β, é a antecipação. Ela existe porque, no dia do colapso, o juro salta e a demanda por moeda despenca de uma vez: o público devolve moeda e leva as reservas restantes, que valem exatamente:

reservas perdidas no ataque = α·μ/β   ·   exemplo: 100 × 4 / 50 = 8 bilhões
No simuladorLigue Esgotamento sem ataque para ver T* ao lado do ataque. Depois abra Sem antecipação (α = 0): as duas datas se fundem, porque sem sensibilidade ao juro não há salto na demanda por moeda.

1.6 Por que antes? O argumento de arbitragem

Suponha que todos combinassem esperar as reservas acabarem no mês 10. Nesse dia, o câmbio saltaria de 2,00 para o câmbio sombra daquele mês, 2,16. Como todos sabem disso, comprar dólar um instante antes renderia 8% sem risco nenhum.

Alguém então compra um pouco antes. Outro, antes ainda. A corrida só para quando não sobra salto a ganhar: no ponto em que o câmbio sombra encontra a paridade. É por isso que, no modelo, o câmbio não dá degrau no colapso. O degrau aparece nas reservas.

No simuladorAbra Por que atacar antes?. A seta vermelha em T* mostra o salto que existiria se todos esperassem.

1.7 O dia do ataque e o dia seguinte

VariávelAntes do ataqueNo ataqueDepois
CâmbioFixo em S̄Sem saltoDeprecia μ/β por mês
ReservasCaem μ por mêsCaem αμ/β de uma vezZero
Base monetáriaConstante, M̄Cai αμ/βCresce com o crédito
Juro domésticoIgual a i*Saltai* + depreciação esperada
Nível de preçosEstávelSem saltoSobe com o câmbio (PPC)
No simuladorAbra O dia do ataque: o painel de juros aparece e mostra o salto de 0,5% para cerca de 4,5% ao mês.

1.8 O que a política econômica pode fazer

MedidaEfeito no modeloNo simulador
Mais reservas (empréstimo externo)Adia o ataque; não evitaMais reservas
Parar o crédito (ajuste fiscal)Evita a crise: a paridade fica sustentávelAjuste fiscal a tempo
Acelerar o créditoAntecipa o ataqueDéficit maior
Subir os juros para defenderFora do modelo: o governo é passivo. É o tema da 2ª geração—
A lição de política. Na 1ª geração, a crise é sintoma, não doença. Culpar os especuladores é confundir o termômetro com a febre: eles só anteciparam uma data que a política fiscal e monetária já tinha marcado.

1.9 Origem e casos

O argumento vem de Salant e Henderson (1978), que estudaram tentativas oficiais de fixar o preço do ouro. Krugman (1979) trouxe a ideia para o câmbio, e Flood e Garber (1984) deram a versão linear usada aqui.

Episódios frequentemente associados à 1ª geração são o México em 1976 e 1982 e a Argentina em 1981: déficits financiados pelo banco central, câmbio fixo ou pré-anunciado e perda contínua de reservas.

1.10 Vocabulário do capítulo

Câmbio sombraO câmbio que vigoraria se as reservas acabassem naquele instante e a moeda flutuasse.
Ataque especulativoCompra súbita das reservas restantes, que força o fim da paridade.
T*Data em que as reservas acabariam aos poucos, sem ataque: R₀/μ.
AntecipaçãoQuanto o ataque vem antes de T*: α/β.
Moeda endógenaSob câmbio fixo, a base se ajusta à demanda; o banco central não a controla.
FundamentosDéficit, crédito e reservas: as variáveis que decidem se a paridade dura.

1.11 Pegadinhas de prova

  1. "O ataque ocorre quando as reservas se esgotam." Errado: ocorre antes, com reservas ainda positivas (αμ/β).
  2. "O câmbio salta no momento do colapso." Errado no modelo com previsão perfeita: o salto seria arbitrado. O que cai de uma vez são as reservas.
  3. "A expansão do crédito aumenta a base monetária sob câmbio fixo." Errado: muda a composição do ativo, não o total.
  4. "Mais reservas resolvem a crise." Errado: adiam. Só o fim da expansão do crédito resolve.
  5. "A crise pode atingir país com fundamentos sólidos." Errado para a 1ª geração; é a marca da 2ª.
  6. "O câmbio fixo impede o uso dos juros na defesa da paridade." Errado em geral: subir juros é a defesa clássica. O modelo de Krugman apenas supõe que o governo não a usa.
TreineO simulador tem 16 itens certo/errado no estilo da banca, separados por assunto, cada um com comentário e botão para ver o efeito no gráfico.
Capítulo 2 · 2ª geração

02 A crise que se autorrealiza

Aqui o governo deixa de ser passivo: ele compara o custo de manter a paridade, como juros altos e desemprego, com o benefício de preservar a credibilidade. Se o mercado passa a esperar uma desvalorização, o custo de defender sobe, e a desvalorização pode acontecer justamente porque foi esperada. Capítulo e simulador premium em preparação.

Capítulo 3 · 3ª geração

03 A crise dos balanços

Empresas e bancos endividados em dólar tornam a desvalorização destrutiva: o câmbio sobe, a dívida em moeda nacional incha, o investimento desaba e os bancos quebram. Crise cambial e bancária se alimentam uma da outra. Capítulo e simulador premium em preparação.

Revisão

04 Quadro comparativo

1ª geração2ª geração3ª geração
ReferênciasKrugman (1979); Flood e Garber (1984)Obstfeld (1994, 1996)Krugman (1999)
CausaCrédito cresce com câmbio fixoCusto × benefício de manter a paridadeDívida em moeda estrangeira; fragilidade bancária
GovernoPassivoOtimizadorRefém dos balanços privados
Papel das expectativasAntecipam a dataPodem causar a criseAmplificam o pânico
Previsível?Sim, a data é determinadaNão: equilíbrios múltiplosEm parte
CuraAjuste fiscalCredibilidade, compromissoRegulação financeira, casamento de moedas
Casos associadosMéxico 1976 e 1982; Argentina 1981SME, 1992–93Ásia, 1997–98