Edmilson Conceição
Jornalista e Colunista de Economia Interativa
edorcon@uol.com.br
A questão das "unidades da polícia pacificadora", em que pesem alguns contraditórios, traz alento para quem não aguenta mais tanta violência. Reduziram-se as ocorrências violentas nos morros cariocas em que se fincaram as UPPs. Ou seja, fica claro que a "benemerência" social do tráfico é puro marketing. Nem por isso estou disposto a abandonar meu pacifismo indolente, meu antimilitarismo quase atávico e passar de repente a achar que a paz mais duradoura e profunda é a da força. Seria o famoso si vis pacem, para bellum, isto é, obtém a paz quem se prepara para a guerra.
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Que fique bem claro: traficantes são abjetos. Mas eles só existem porque a droga é uma mercadoria importante. Ela é a esperança dos desesperados sem opções da favela, na esteira da inconseqüente gurizada classe-média, que por sua vez segue os passos supostamente glamurizados das chamadas elites.Honestamente, não sei de crenças, ideologias, freios morais, éticos ou religiosos que possam ser mais que paliativos para tudo isso. No Rio de Janeiro, milhões mais de "combatentes" do Afro-Reggae teriam que surgir para oferecer uma alternativa mercadológica mais atraente e menos deletéria que as drogas.
Cá pra nós. A molecada toda - nos altos da Rocinha ou dos apartamentos de São Conrado - tem uma percepção aguda de que a corrupção e a hipocrisia também são moedas de troca bem aceitas nesse camelódromo social.
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Buracos das fronteiras
A hipocrisia faz, por exemplo, o Brasil se posicionar entre uma dezenas de países produtores de armamentos. Enquanto isso, paga uns trocos para a população se desfazer de garruchas do tempo do descobrimento, tornar ilegal o cidadão armado (a lei, ora, a lei), aconselha a passividade diante das pistolas até de brinquedo, fecha os olhos aos enormes buracos de nossas fronteiras por onde flui inimaginável poder bélico... Só há eficiência, mesmo, para proteger o sagrado negócio de vender dinheiro: não é isolado o caso do cidadão "armado" de um simples marca-passo, alvejado mortalmente por seguranças de banco.
Eficientes, também, claro, as unidades de polícia pacificadora. Mas como sou pacifista e antimilitarista, talvez tenha sido parcial ao observar e analisar um fato ocorrido em São Paulo
Fazendo aquela caminhada cardiológica habitual, vários frequentadores dividiam o bucólico cenário do Parque da Aclimação, na Capital Paulista, com um grupo de recrutas que faziam exercícios. Esses jovens militares eram cerca de 40 garotos (faixa dos 18/19 anos), corpos esguios, de camiseta, calção e tênis, corriam e gritavam em coro. Não param a corrida nem a gritaria. Esta funciona assim: uma solitária voz de comando diz uma frase ritmada. Os recrutas repetem a palavra de ordem, em uníssono, o mais alto que podem, enquanto vão trotando. O espetáculo e até bonito. Aquela demonstração de energia, a ordem unida e a juventude captam simpatia entre os pré-cardíacos que frequentam o Parque.
Palavras de ordem
As tais palavras de ordem são quase sempre pura bobagem. Tudo bem. Às vezes porém são expressões preconceituosas, que atingiam as mulheres, mas que para os soldados, parece, valorizam o macho, o conquistador, o "guerreiro".
- Corro para o mato pra matar o dia inteiro - comandava agora a voz solitária.
- CORRO PARA O MATO PRA MATAR O DIA INTEIRO - repetiam a plenos pulmões os recrutas.
- Corro todo dia pra matar com alegria!
- CORRO TODO DIA PRA MATAR COM ALEGRIA!
As palavras de ordem ficaram reboando na cabeça dos safenados do parque. Será com esse tipo de bordão que os militares pretendem incutir "ideal" nos jovens, valorizar o sentimento pátrio, despertar-lhes a auto-estima, o espírito de luta?
Entende-se que uma organização como o Exército forme combatentes, não sujeitos "bonzinhos" prontos a confraternizar com o "inimigo". Mesmo isso, porém, não deveria excluir lavagens cerebrais do tipo matar todo o dia e com alegria?
Algumas pessoas vão dizer que as palavras de ordem do Parque são só uma brincadeira inconsequente. Duvido. E espero, como cidadão, que não me acusem de enxovalhar a honra de ninguém ao sugerir que as patentes adequadas revejam radicalmente o processo de "formação" dos recrutas brasileiros.
Não precisam gritar slogans inspirados por Madre Teresa, Buda ou Gandhi. Não se tolham o bom humor, a brincadeira e até a férrea disciplina. Mas algum cuidado, há que ter. Ou estaremos dando licença para reagir, e matar, ao primeiro cidadão alcoolizado que dirigir um gracejo aos heróicos guerreiros.
(Leia O Câncer da viloência do Estado e Mataram Ivan. E o que você tem a ver com isso?)
01/09/2010