Claudio Lachini
Editor Sênior
Economia Interativa
Nesta tarde que cai langorosa, por força da secura do ar cuja umidade anda por volta de 22% na cidade de São Paulo, navego pela infernética e me encontro diante de um suposto debate eleitoral, o qual sobressai por sua beleza e a falta de nexo no que diz, a "Mulher Pera". Ela é candidata a deputada federal pelo PTN, sigla de um partido sobre o qual nada ouvi falar, nem que, como outros, seria "partido de aluguel".
De tantas que ela não diz, anoto apenas sua resposta sobre a atividade parlamentar.
- "O que a senhora fará como deputada? - Pergunta-lhe o entrevistador.
- "Eu vou fazer projetos e dar para o governo!" Sua resposta está na ponta da língua. O entrevistador deixa passar em branco e não lhe explica qual é a tramitação de um projeto de lei. Afinal, como candidata, seria de sua obrigação conhecer os poderes da República e o seu funcionamento. O entrevistador insiste:
- "Qual será sua preocupação principal, como deputada?"
- "Vou endurecer a lei Maria da Penha.
Juro que consegui afastar as tentações machistas e não dizer cá as minhas asneiras, nem comigo mesmo. Fui leitor de Jean-Paul Sartre e Simone de Beuvoir no começo dos anos de 1960 e tive minhas aulas de feminismo muito tempo antes do que algumas vovozinhas se armassem de paus e pedras para atacar cabra-macho que nem eu.
Um dia diante do desfile de todo o pomar (mulher melancia, mulher abóbora, mulher chuchu, mulher laranja, mulher uva e não me recordo mais quantas frutas e hortaliças desfilam pelo vídeo, candidatas ou não; vi também cantores, alguns tenores, outros barítonos ou atores, todos travestidos de salvadores da Pátria que tive vontade de renunciar à cidadania, mudar-me de país.
A malemolência e o desfile de vaidades é tão contundente, as pessoas se despem tão facilmente, que o melhor seria emigrar. Mas de repente encontro uma amiga recém retornada da Itália e ela me diz que as ruas das cidades grandes (Roma, Milão) estão completamente tomadas por vucumprà, que é como se diz camelô por lá, tanto quanto as cidades menores, como Pisa ou Perugia, Assisiou Amalfi. As ruas de Roma estão imundas e fedem a urina. Um italiano abrasileirado complementa: "Para que Berlusconi a cheire".
Certo pois deve estar o senador Eduardo Suplicy, que é rico de nascença, maluco de presença e idealista de inocência, quando vem a público ou de privado, não sei, e apóia a "Mulher Pera". Afinal, é fruta digestiva e nenhum mal fará ao Congresso Nacional. Como se o Poder Legislativo fosse local para se fazer o bem, como crêem aqueles que louvaram o "bom selvagem", escrito de um francês que desejava aparecer e a ele só restava contrariar Machiavelli.
Segundo o criador da ciência política da era do Renascimento, o citado Niccolò Machiavelli, o homem nasce mau e somente as boas leis e sua fiel observância são capazes de o tornar virtuoso. Lembremo-nos que o conceito maquiavélico de virtude (virtù) é a predisposição para evitar o mal e praticar o bem, cuidando-se do corpo e do espírito, conjunto de onde vem a fortaleza capaz de superar as desídias desta vida. A propósito de Machiavelli, ainda, é bom lembrar que em 2013 serão completados 500 anos de sua obra "O Príncipe" que os papas tornaram célebre, levando-a ao índex dos livros proibidos no ano de 1559.
A eleição da "Mulher Pera" tem aqui a minha simpatia, em meio a tanta vilania que acossa a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Quem sabe mesmo um dia este imenso País, dito "celeiro do mundo", poderá ser governado por todo um pomar com leis obradas por um jardim, o perdido jardim do Paraíso que os antigos viram no imenso Oeste de nossa terra, para lá de Brasília, onde se ligava o "Prata ao Amazonas".
01/09/2010