Sábado, 28 de agosto de 2010, Ivan foi brutalmente assassinado em praça pública. Isso mesmo. Ivan tentou evitar uma briga banal e foi covardemente golpeado com uma facada. Ele foi socorrido e em seus últimos minutos de vida pediu que não o deixassem morrer. Ivan era jovem, bonito, saudável, feliz. Tinha família, amigos, namorada, sonhos, um futuro.
Quando recebi a notícia de sua morte fiquei abatido, com uma sensação de mal-estar, como se tivesse recebido um soco no estômago. Eu conhecia Ivan desde a infância. Ele era como eu. De uma família simples, de Nova Soure, uma pequena cidade do interior da Bahia. Seus pais, assim como os meus, um dia certamente lhe disseram que a educação tinha um valor essencial para a sua formação. Ivan se tornou um advogado e estava prestes a inaugurar o seu primeiro escritório. Morreu dois dias antes, aos vinte e oito anos de idade.
Eu não conheço o jovem que matou Ivan, mas acredito que ele não teve o amor, a segurança e a orientação educacional que fizeram de Ivan uma pessoa querida e adorada.
Para o Estado, Ivan virou uma estatística. O Ministério da Justiça contabiliza, anualmente, cerca de cinquenta mil vítimas de assassinatos em todo o país. O assassino de Ivan é menor e está foragido. Caso seja capturado, será indiciado com base no Estatuto da Criança e do Adolescente pela autoria de crime de homicídio qualificado e poderá receber uma pena "socio-educativa" de até três anos de internação, a ser cumprida em local apropriado, provavelmente na capital baiana.
Para entender a morte de Ivan é preciso conhecer o sistema. Conhecendo o sistema fica fácil compreender que Ivan morreu de câncer. O crescimento desordenado de células que invadem os órgãos de forma agressiva e incontrolável. Ivan morreu do câncer do Estado. Um tipo da doença cuja metástase paralisa a sociedade diante da falta de políticas públicas. Quadro que se agrava quando o próprio Estado não reconhece o seu câncer, pois lhe convém transferir o sentimento de plena saúde e vigor. (Leia O Câncer da viloência do Estado)
Casos como o de Ivan tornaram-se comuns no Brasil. A banalização dos crimes contra a vida faz pairar a indiferença. A notícia de um assassinato já não choca tanto e você pode até pensar: mas o que eu tenho a ver com isso? Exceto quando a vítima é alguém que você conhecia de perto. Aí se percebe que a linha que nos separa da morte é bastante tênue, como o gume da faca que abreviou a vida de Ivan.
(Leia também Matar com Alegria)
Alexandre Cerqueira
Consultor do núcleo de TV de Economia Interativa
alexandre@usina3.com
01/09/2010