Ariverson Feltrin
Jornalista. Colunista de Economia Interativa
afeltrin2@hotmail.com
Pergunte-se para qualquer criança quantos títulos mundiais de futebol coleciona a seleção brasileira e a resposta virá certeira: cinco copas!
Se desde 2002, quando levantamos o pentacampeonato, o hexa sequer raspa na trave, outras conquistas têm sido consolidadas.
Uma delas é a repetição de expressivas marcas mundiais em produção de ônibus. Das montadoras aqui instaladas, todas têm o Brasil como centro de referência. São os casos da Mercedes-Benz e Volvo, instaladas respectivamente em São Bernardo do Campo (SP) e Curitiba (PR). Ambas elegeram o País como centro mundial de desenvolvimento de chassis. Aqui, e não na Alemanha ou Suécia, nascem soluções para o transporte de passageiros.
No próprio País, no entanto, apesar das láureas mundiais, o ônibus não faz milagres. Ao contrário, comumente é desprezado e tido como atravancador mor de ruas e avenidas.
Não se pode dizer que, no Brasil, o ônibus, em que pese sua importância nos deslocamentos urbanos de passageiros, tenha adquirido status. Ao contrário, em geral é confundido como perturbador do trânsito, a não ser, claro, que disponha de um sistema em que tenha preferência sobre o transporte individual.
O arquiteto Jaime Lerner, que graças às várias gestões de mando (como prefeito de Curitiba e governador) conseguiu criar condições favoráveis à operação de ônibus no Paraná, desde os anos 1970 repete um bordão. "Pouco interessa se bonde, metrô, ônibus, o que importa é a via exclusiva para o transporte coletivo. Tem que existir e ponto final".
Sistema manco e deficiente
O raciocínio é lógico. Um ônibus, um bonde, tem três vezes o comprimento de um carro, no entanto, leva no mínimo 50 vezes mais pessoas. Sua contribuição para a racional ocupação do espaço urbano é inequívoca.
A cidade de São Paulo, em quase 40 anos de operação de seu sistema de Metrô, criou 65 quilômetros de rede, muito pouco para as necessidades da maior metrópole brasileira e uma das cinco do mundo. O argumento é invariavelmente monocórdio. Falta dinheiro para avançar mais.
O fato é que sistema manco e deficiente de transporte de massa abre as portas para o crescente número de automóveis. Assim, em vez de fluir, o trânsito a cada ano se arrasta mais, não apenas em São Paulo como em outras cidades brasileiras.
A equação é mais ou menos a seguinte: o Metrô é sonhado com salvador, o ônibus é tratado feito vilão e o automóvel amplia os espaços ocupados.
É um paradoxo o que se vê. Enquanto o Brasil pouco faz para inserir o ônibus numa estrutura preferencial de vias e avenidas, alguns países têm buscado aqui não só o ônibus fabricado como soluções operacionais. Bogotá, a capital colombiana, teve Curitiba como fonte de inspiração para a implantação do 'Transmilênio', sistema de vias exclusivas sobre pneus.
Como o futebol é uma referência brasileira, a Copa de 2014 que será disputada aqui traz esperanças. Está projetada a implantação de uma rede de sistemas modernos de corredores de ônibus nas 12 cidades que servirão de sede para os jogos.
Assim, ainda que hexacampeonato não seja conquistado nos gramados, a Copa deverá deixar ao Brasil um bom legado no campo da mobilidade urbana.
23/08/2010