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Legume não se pica com punhal

A crise é o pior momento para receber presentes. Estes, os presentes, podem vir embalados em condições sutis mas que podem comprometer o futuro de um governo ou de um país

 

O Chile, com sua presidente um passo já fora do Palácio de La Moneda, acaba polidamente de agradecer a ajuda financeira dos EUA e de outros países para remediar o que o devastador terremoto causou a parte de seu território. Agradeceu e recusou.

O Haiti não recusou nada. Entende-se. O país é paupérrimo, miserável mesmo. Está aceitando tudo e há quase que uma disputa entre as demais nações para ver quem é mais generoso na ajuda. Brasil na ponta. A Grécia, confortavelmente engastada na coroa européia de nações, fez exatamente como o Chile: agradeceu e recusou tudo.

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O Haiti parece andar certo. Os miseráveis tem direito à dignidade, mas o orgulho em determinados casos é uma qualidade prima da burrice

Já Chile e Grécia, apesar de agirem em pólo oposto ao do país caribenho, parecem andar ainda mais corretos na surpreendente atitude. A recusa seria um comportamento quase adolescente, mas compreensível, de dizer: "Eu estou bem. Não me encham o saco. Eu sei resolver meus problemas sozinho." Adolescentes com um posicionamento assim costumam quebrar a cara e em seguida dar certo na vida, muito certo.

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Até porque desastres da natureza ou da economia estão cada dia mais mundiais, as atitudes dos países devem ser colocadas dentro do cenário de globalização.

O fenômeno da globalização é coisa que se fala há umas três décadas mas que começa a se generalizar realmente neste começo de milênio. O domínio de uma nação sobre outras sempre foi de fundo econômico. Essa plataforma econômica significa em termos rasteiros a capacidade de um país de conferir bem-estar aos seus cidadãos (os outros que se danem) e de pôr comida no próprio prato. Ao longo da história, a expressão desse domínio econômico, porém, foi formalmente militar, tecnológica, cultural e até demográfica. Hoje mais que nunca é política. Estão felizmente moribundas e quase fora de moda as aventuras imperialistas (falamos, por exemplo, de romanos...), escravistas, colonialistas e expedições militares de simples saque ou conquista. Em que pesem manifestações retardadas por parte de alguns governos americanos, africanos, asiáticos, enfim, de todos os continentes.

Verdolenga, mas já quase madura, a globalização requer portanto mais política que força; mais marketing, que força; mais jeito, habilidade e atitudes do que força.

Globalizados, somos, todos e cada um dos países, cada vez menos independentes e soberanos. A dependência, ou vassalagem, explícita ou disfarçada, é tanto maior quanto menor for a expressão econômica - e em certa medida "política" - de uma nação.

Grécia, assim como Espanha, Portugal e mais duas ou três nações européia, não vive o melhor momento da sua força econômica. Afetados pela crise da bolha imobiliária norte-americana que contaminou o mundo, esses países enfrentam dificuldades crescentes como desemprego, déficit público, paralisação de investimentos, estagnação, inflação, dívida externa...

A má reputação é pior do que a tragédia 

O problema é que, quando se trata de ajuda e do enfrentamento de tragédias como enchentes, tsunamis, terremotos e erupções, governos podem aceitar tudo, aceitar parte ou não aceitar nada do que lhe é oferecido. Depende de suas conveniências políticas, internacionais ou internas.

Há países que têm direito ao orgulho de recusar uma ajudazinha. Estão no meio das tabelas de desenvolvimento, isto é, fora da lista dos miseráveis mas não ainda admitidos no clube dos ricos. Para os governos de alguns desses países, aparentemente a má reputação é pior do que a pior das tragédias. E receber ajuda financeira seria o reconhecimento disso. Parece ser o caso de Grécia e Chile, agora. Brasil fez isso no passado recente, com a tragédia de uma dívida externa monstruosa: não aceitou "ajuda", pagou e se deu bem. Fez o oposto da Argentina, que preferiu o calote e hoje desaba pelas tabelas.

Uma das razões mais cerebrais para recusar a solidariedade financeira na crise é que os presentes podem vir embrulhadops em sutis condições, que eventualmente vão comprometer o futuro do país que os recebe.

Para governos, portanto, a ajuda na crise pode ser um embaraço.

Cidadãos, estes querem mais é se livrar de seus males e sofrimentos imediatos. As tramas econômicas globais não são urgentes, as enchentes e terremotos, sim. O povo quer mais é ser feliz. A economia e os governos, eles é que se danem.

Esta é a armadilha. Potencialmente tão perigosa quanto uma tragédia natural. É como cortar legumes com punhal.

O tema e bom para político pensar na cama, em tempos pré-eleitorais.

 

Edmilson Conceição
Jornalista, colunista de Economia Interativa
edorcon@uol.com.br

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01/03/2010

 

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