Divulgação

Sustentabilidade & Governança

Quando a confiança dá lucro

A frase de Rupert Murdoch sintetiza bem o novo capitalismo: "O mundo está mudando muito rápido. O grande não vai mais bater o pequeno. Será o rápido batendo o lento".

 

Carlos Vieira (*)

Em conversa recente com um querido amigo, alto executivo de uma importante companhia, ele me falava de um estrondoso sucesso de sua empresa, que passou por dias intensos envolvendo tomadas de decisões particularmente difíceis. Estava em causa anos de planejamento estratégico, e - o que é pior - sem muito tempo para grandes ponderações, o que exigia por parte de acionistas e investidores um alto grau de confiança na equipe de executivos à frente do negócio.

Ao final, as decisões tomadas revelaram-se acertadas e todos puderam comemorar resultados altamente positivos, mas o que me chamou mesmo a atenção na nossa conversa foi justamente o grau de confiança que foi depositado nessa equipe, ainda mais num momento de grande incerteza. Em tempos difíceis, quando muita gente prefere a confortável retranca, é louvável ver que ainda há espaço para a confiança no mundo empresarial.

O que me remete a um excelente livro presenteado por uma amiga que trabalha no mercado financeiro em Nova York: The Speed of Trust, de Stephen Covey, ainda não editado no Brasil, mas aclamado por alguns dos maiores executivos, autoridades e especialistas em gestão, marketing e recursos humanos da atualidade.

Com a mensagem-chave "Quando a confiança é baixa, a velocidade diminui e os custos aumentam", o livro mostra que, mesmo numa atmosfera de desconfiança crescente no mundo dos negócios e no próprio ambiente corporativo, estimular a confiança pode ser lucrativo.

De fato, os recursos gastos em controle excessivo, centralização exagerada, falta de autonomia, múltiplas auditorias e intermináveis revisões de processos não só deixam as empresas completamente engessadas como custam caro. E os gastos não são apenas diretos, com consultorias pagas a peso de ouro; são sobretudo indiretos, com a perda de oportunidades de negócio.

O inquestionável Warren Buffett

Empresas que instalam a suspeita generalizada em seu ambiente de trabalho, dificilmente conseguem realizar bons negócios, principalmente porque, com tantas e desnecessárias aprovações de instâncias superiores, não conseguem dar respostas em tempo hábil.

Em contraposição a isso, o livro cita alguns exemplos de enorme sucesso de gente que simplesmente resolveu remar contra a maré da desconfiança. Como o emblemático caso da aquisição, em 2003, da McLane Distribution à Wal-Mart pela Berkshire Hataway, do inquestionável Warren Buffett.

É bom referir que, à época, tanto a Wal-Mart quando a Berkshire eram empresas cotadas na Bolsa de Nova York e, portanto, sujeitas a todo um arcabouço de controle de mercado - isso para que ninguém cite a excessiva regulação do mercado de capitais como desculpa para qualquer engessamento decisório na empresa.

Numa situação dessas, o normal é que um processo de aquisição dessa envergadura leve vários meses com milhões e milhões de dólares gastos com auditorias, due diligences, contadores, advogados encarregados de checar e rechecar toda a informação passada pelo lado vendedor. Mas, como os dois empresários trabalhavam em regime de alta confiança, o acordo foi fechado numa reunião de duas horas com um simples aperto de mão. Menos de um mês depois, estava concretizado.

Na carta aos acionistas da Berkshire que acompanhou do relatório anual de 2004 da companhia, Buffett escreveu: "Não realizamos due diligence. Sabíamos que tudo seria exatamente como o que o Wal-Mart disse que seria - e assim foi". E isso em menos de um mês poupando milhões de dólares em due diligence. Alta confiança, grande rapidez, baixo custo.

Alguém poderá dizer: "Mas estamos falando de Warren Buffett. Nem todos são como ele...". É verdade, mas o mundo empresarial vive do empreendedorismo e, se os altos executivos das companhias não refletem isso, o erro é das próprias empresas que cedem àquela mediocridade defensiva que reza que quem nada faz não comete erros.

Aliás, a palavra executivo remete à ideia de ação e não à pseudo-gestão que tomou conta de várias empresas, atulhando-as da boa e velha "encheção de linguiça" disfarçada de mecanismos internos de controle, mas cuidadosamente embalada pelo "muderno" blá-blá-blá corporativo.

Mas, felizmente, os tempos que se vislumbram no mundo dos negócios são outros, e a crise dos derivativos só apressou essa transformação. A confiança será certamente um fator fundamental na nova economia que se aproxima. E a frase de Rupert Murdoch, CEO da News Corporation, pinçada pelo próprio livro, sintetiza bem o novo capitalismo que já estamos começando a ver: "O mundo está mudando muito rápido. O grande não vai mais bater o pequeno. Será o rápido batendo o lento".

Carlos Vieira
Jornalista, diretor da Insight
Colunista de Economia Interativa, sempre disposto a intervenções cirúgicas não invasivas
chvieira@gbl.com.br

Leia outros artigos de Carlos Vieira em matérias relacionadas

Foto Rupert Murdoch/WEF


21/12/2009

 

Comentários

Especialistas

Gostaria de dar sua opiniao e participar? Faça seu cadastro
 
ECONOMI@INTERATIVA
Home | Infra Estrutura | Consumo | Direitos & Deveres | Finanças | Inovação | Sustentabilidade & Governança
Agronegócios | Carreiras & Educação | Empresas | Política & Poder | Sociedade
Expediente | Contato | Anuncie
Podcast

Para onde foi o dinheiro da CPMF?

Publicidade