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Inovação

A dança das cadeiras

Provando não serem insetos cibernéticos, jovens põem de pernas para o ar as cadeiras da Campus Party, a maior feira-livre de tecnologia e criatividade do mundo

 

O Brasil tem mundialmente a maioria absoluta de participação na rede Orkut: 51% dos usuários. Isso,apesar de apenas 38% da população brasileira ter acesso à Internet. Dá para imaginar o potencial explosivo de crescimento quando chegarmos ao nível de países como Japão e EUA. Eles ultrapassam os 70% da população ligados à rede mundial de computadores. Não sei se alguém duvida de que chegaremos lá.

Esse nome feio criado pela Google, Orkut, é uma dessas marcas que de tão comum em breve figurará como verbete em dicionários da língua portuguesa. Lugar de destaque, ao lado de palavras como gilete, fórmica, isopor, náilon e outras. (Desconfio que é por isso que já sacramentaram o "k", repatriando-o ao nosso léxico.)

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O Orkut é de longe a mais popular das chamadas "redes sociais". Existe uma dúzia delas, como Twitter, Facebool, Linkedin, além dos blogs... Cada qual com um ou outro objetivo declarado de atração principal. Mas todas servem para uma única coisa: comunicação entre pessoas, usando como meio o computador e a Internet.

Em outras palavras, o Brasil é um campeão mundial, um fenômeno de comunicabilidade.

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Ai daqueles que, daqui a pouco, não compreenderem e assimilarem esse fato. A saber: governantes, políticos, empresários, cientistas sociais, líderes religiosos ou comunitários, comandantes policiais e militares, estrategistas de marketing, juízes, promotores e outros, publicitários, jornalistas, acadêmicos e analistas variados. (Se esqueci alguma classe poderosa foi manifesta sacanagem...)

Falta muito pouco para que essa gurizada que se senta e fica como que vidrada diante de um monitor se levante - termo perigoso.

O que é preciso compreender é que essa meninada não está "vidrada" nem é uma espécie alvo para as alfinetadas de entomologistas. Não são um tipo de inseto cibernético, com indefectíveis seis patas - duas próprias, dobradas, mais as quatro de uma cadeira colada no glúteo. Basta um bom motivo, uma conjunção astral qualquer, ou mesmo motivo nenhum - uma faísca - e essa população se levanta. E vai à luta.

Estarei delirando? Falo de algo imaginário e tão improvável que parece surto febril? Pois saiba que isso tudo é real: os confrontos de gangues, as notícias sobre as eleições iranianas, as invasões legislativas dos jovens brasilienses, tudo intermediado pela Internet.

Os sinais dos novos tempos deram o ar da sua graça de maneira surpreendente na recente Campus Party, realizada em São Paulo.

Pernas para o ar

A Campus Party é um evento mundial que reúne todo tipo de pessoa que se possa imaginar, mas ligadas a criações e inovações tecnológicas ou comportamentais, sempre girando em torno do computador. É uma multidão de jovens que durante uma semana acampam em barracas no próprio local daquela feira-livre tecnológica. É uma espécie de Woodstock anual, só que as relações se dão todas com o computador. Para variar, a Campus Party brasileira já é a maior do mundo.

Pois bem, em determinado momento, naquela semana, um "maluco" de repente deixou de encarar o seu monitor. Se levantou. Levantou sua cadeira, de pernas para o ar, acima da própria cabeça. E saiu a mil, pulando e gritando como um ganhador de loteria. Imediatamente, como se tivessem ensaiado, centenas (alguns falam em 2 mil) de jovens corriam e gritavam e dançavam e desfilavam com as cadeiras na cabeça. A Campus Party virou também, por uma hora, o maior carnaval cibernético do mundo.

Ninguém sabe o que aconteceu. Nenhum dos passistas explicou por que desfilou, com as cadeiras transformadas de assento em quadricórnio. Não houve quebra-quebra, ninguém precisou comandar nem ser comandado. A polícia não foi chamada, os cavalos não foram acionados. Ninguém pôs ordem nos vários blocos, que mostraram em ecológicas filas indianas suas alegorias de mão, sem ofender uma única tomada da floresta de equipamentos.

A faísca pode ter sido o extravasamento de alegria de um jovem, após uma descoberta que daqui a pouco vai fazer dele um novo Biil Gates ou Steve Jobs. Mas a espontaneidade do desfile da Estação Primeira das Cadeiras leva a uma explicação melhor. A "dança" foi uma reação "natural" de quem, não sendo inseto, achou no gesto apenas uma maneira divertida de esticar as pernas. O contágio coletivo foi imediato.

Com tanta tecnologia, tanta "realidade virtual", tanta "realidade aumentada", esse bando de supostos insetos cibernéticos ainda acabará voando. Com ou sem motivo, basta uma centelha. E podem voar alto. Bem mais alto do que sonharia a vã filosofia daqueles verdadeiros ga®fanhotos, especialistas em esconder cédulas em paraísos fiscais, bolsos, bolsas, malas, sacolas de óbolos, meias e cuecas.

Ah, essa dança das cadeiras vai pegar!

Edmilson Conceição
Jornalista, colunista de Economia Interativa
edorcon@uol.com.br

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04/02/2010

 

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