A dinâmica criada pela disseminação do uso dos micro-computadores nas empresas, o email, as novas tecnologias de comunicação, a Internet e as redes sociais, entre outros, vêm demonstrando a capacidade das pessoas agirem de maneira colaborativa, independente, sem supervisão e nem limites. Essa ampla liberdade se contrapõe ao ambiente notadamente hermético das organizações. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil.
Segundo pesquisa publicada por The Economist , a cada 10 pontos percentuais na taxa de uso de celulares pela população há um acréscimo de 0,6% na taxa de crescimento do PIB. Se essa estatística se aplica ao Brasil, o crescimento alcançado de 5% ao ano deve ser totalmente atribuído à telefonia móvel, já que esta cresceu exatos 80 pontos percentuais de 2002 para cá.
Essa liberdade pressupõe novos caminhos, novas formas de relacionamento, novas estruturas de rede e uma ampla autonomia. Não é o que temos hoje dentro das organizações. Por seguirem os padrões do modelo industrial, as empresas ainda se apoiam no regime de comando e controle.
Esse modelo tolhe a liberdade e impõe contingências sobre todas as ações da empresa, que é dirigida por um modelo hierárquico-burocrático. Parafraseando a citação do guru de estratégia e gestão, Gary Hamel, no seu livro "The Future of Management": O astronauta Bill Anders respondendo a uma pergunta de um garoto filho de um técnico da NASA quando Apollo 8 retornava a Terra: "Quem pilota a aeronave?" - "Eu acho que Sir Isaac Newton está no comando agora", respondeu o astronauta.
Condições de contorno
As organizações são, de alguma forma, dirigidas dentro de normas e regulamentos concebidos no passado, como a lei da gravidade governava a aeronave de volta a Terra. O que Gary Hamel propõe, em seu livro, é o exercício constante, pelas organizações , de como pensar, imaginar e criar novos modelos de gestão para atender aos requisitos do amanhã, não de ontem.
É da característica do ser humano reagir somente em situações onde as condições de contorno impõem mudanças. Não se imagina ou pensa a mudança de forma pró-ativa. Discutindo as reações das empresas em momentos de crise, como a recente crise internacional, todos os relatos dão conta de soluções ortodoxas para consertar o problema - não se tem notícia de algum governo ou organização que tenha, em plena crise, convocado as maiores inteligências para debater as soluções.
Tudo foi feito dentro do conceito tradicional. A bem da verdade, essas discussões deveriam ter ocorrido muito antes. Ben Bernanke, que acaba de ser agraciado como o Homem de Visão do Ano pela revista Time, teve efetiva participação no desencadeamento da crise ao negar, peremptoriamente, que os fundamentos do mercado imobiliário e os padrões de concessão de crédito eram falhos ou estavam errados.
Organizações de sucesso - a história tem centenas de exemplos - que não cultivam a serenidade e humildade da auto-avaliação se tornam arrogantes e desaparecem. Tirar a organização da zona de conforto deveria ser um exercício constante em qualquer organização. Deveria, de fato, incorporar-se ao DNA da empresa.
Discutindo a apatia por soluções inovadoras pré-crise no âmbito do Instituto da Economia Criativa, o filósofo Jean Bartoli, do Instituto de Marketing Industrial, citando Nitzsche vaticina: "O preguiçoso é o homem de ação que submete-se a um ritmo frenético de trabalho para escapar dos problemas". Está na hora de esquecer a velha convicção de que "em time que está ganhando não se mexe".
Adolfo Menezes Melito
Instituto da Economia Criativa, Bacharel em Ciências Econômicas pela Fundação Santo André, MBA pela ESPM/ITA
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12/01/2010