A Agência Nacional de Águas (ANA) é um lugar razoavelmente sério. Talvez porque para lá o estrato aparelhado do Governo Lula tenha empurrado algumas pessoas de mais chata competência. Pois é de lá que vem uma advertência do dilúvio.
Os reservatórios das hidrelétricas estão cheios e os açudes também. Poucos deles - como o Açude de Orós - têm condições confiáveis de aliviar águas capazes de ameaçar as barragens com as chuvas que se prenunciam - especialmente entre o Centro e o Sul do País - neste charmoso verão que se aproxima.
Sobre essas chuvas, há também cautelares indicações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Instituto Nacional de Meteorologia. Algo parecido com o recado que Deus deu a Noé: "Comece logo a construir a arca, bicho, porque não vai dar para salvar todo mundo".
Entretanto, a substância dos avisos da Ana - melhor para o Brasil do que a placidez ascética da tecnologia dos meteorologistas - enfia fundo o dedo na ferida do despreparo da defesa civil do País inteiro.
Nas trevas que o ministro Lobão, das Minas e Energia, alumiou apertando o interruptor e dizendo que não se fala mais nisto, constatou-se com simplicidade a fragilidade da defesa civil de São Paulo e Rio de Janeiro no apagão de comunicações de polícia, bombeiros, trânsito, telecomunicações e até - pasmem! - Imprensa.
Salvaram-se, mais uma vez, para os cidadãos, as emissoras de rádio. E demonstrou-se, com riqueza de detalhes, como anda capenga a telefonia, o provimento da Internet e os sistemas de sustentação autônoma do tratamento e distribuição de água. Todos, porcas e parafusos de sustentação e apoio dos cidadãos em situação de crise extrema.
É possível que o Presidente Lula não esteja a par do tamanho desta encrenca - não exatamente por conta das eleições do ano que vem. Ele não é analfabeto, como declarou o nosso letrado Caetano Veloso. Mas é teimoso e tem uma gosma de ignorantes e obtusos assessores que lhe impedem sistematicamente (como eu diria respeitosamente ao presidente do meu País) "de por os pés no lodo".
Suponho, por exemplo, neste ramo das águas e da energia elétrica, que a Dona Dilma tenha lhe alertado, com vigor disciplinado, como sempre foi do seu feitio, sobre a temerária entrega do setor energético à turma das trevas.
Quem segura o fio terra?
A partir de janeiro do ano que vem todos os machos e fêmeas que conduzem eletricidade neste País entram em definitivo processo de padronização: tomadas com três buracos, nas paredes, plugues de três pinos, nos equipamentos. Para quem não foi devidamente avisado (a patuléia, como qualifica com propriedade o jornalista Elio Gaspari), o padrão das fêmeas deveria ter começado a funcionar nas novas edificações variadas desde janeiro deste ano. Mas não foram.
Constam no prejuízo da lei inúmeros apartamentos, casas e escritórios brasileiros construídos neste ano com fêmeas de dois buracos ou sem utilidade adequada para o terceiro pino dos plugues.
Explico. O terceiro buraco das tomadas, às vezes em forma de fendas e em geometria esquisita - no caso das máquinas de lavar roupas (fêmeas, como se dizia antigamente) que começaram a aparecer no Brasil há algum tempo, não se destinam a confundir as pessoas, mas a lhes dar segurança de que alguma eletricidade mais doida possa se escoar por um terceiro fio que a conduzirá para a terra, sem danificar seus aparelhos.
Daí o terceiro pino dos plugues (machos) que precisam estar solidários com a companheira por onde trocam energia até que se desligue o interruptor de qualquer máquina.
O problema é que o terceiro buraco da tomada (os outros dois se acertam apenas com a energia fornecida pelas concessionárias e com as boas normas elétricas dos prédios) precisa estar aterrado, isto é, estar ligado a um fio que nos edifícios ou nas casas conduza a eletricidade doida até que ela se escoe com segurança na terra. E isso, no Brasil, ainda é um sonho de princesa a ser despertada do feitiço pelo beijo do príncipe.
Basta ver - mesmo em construções mais novas e especialmente populares - a quantidade de fêmeas com dois buracos e a variedade de adaptadores de plugues que deixam o terceiro pino de fora.
Vai sobrar gás?
Investimento de R$ 2 bilhões e capacidade de 40 milhões de metros cúbicos por dia - 25% mais do que o fornecido pelo linhão Bolívia/Brasil - a Petrobras está perto de entregar uma via de energia construída na Serra de Macacu, região serrana do Rio de Janeiro, o maior gasoduto brasileiro em volume de transporte de gás.
O gasoduto integra o Plano de Antecipação de Oferta de Gás Natural (Plangás), estimulado pelo inbroglio com a Bolívia, orçamento de mais de US$ 10 bilhões, que será concluído em 2010, com a operação do Campo de Mexilhão, na Bacia de Santos, que poderá fornecer até 15 milhões de metros cúbicos diários na rede brasileira de gasodutos.
A médios prazos, boas consequências. A primeira, na implementação da matriz energética dando fôlego ao fornecimento mais amplo de energia (domiciliar e industrial), equilibrando as pressões sazonais do álcool combustível e implementando os projetos de meia carga da petroquímica a partir do gás. No geral, equilibra a posição do Brasil no Mercosul e reforça a posição estratégica da Nação para discutir em bases mais reacionais as questões ambientais internas e do País para enfrentar os subsídios embutidos nas relações de comércio com Europa e Estados Unidos. Desloca a primazia das elucubrações dos economistas sobre os números do comércio, da indústria e dos serviços financeiros para a vida real da qualidade e da quantidade de energia que o País precisa para prover adequadamente seus cidadãos.