Direitos & Deveres

Salve rainhas

Elas lutam. Abrem espaço com cotovelos e bíceps aprimorados nas academias. Ainda se insinuam a um ou outro espécime viril, mas é como que um hobby, quebra de fastio. É que elas se bastam a si mesmas

 

Salve rainhas

Elas descobriram a sua força. E decidiram fazer uso dela.

As orcas assassinas?

Não. As mulheres.

Sempre foram mais fortes que seus companheiros. Mesmo não tendo que exercitar seus músculos na caça, derrubando a lenha para o fogo, esbravejando contra o inimigo feroz.

Sua força esteve sempre mais localizada nas imediações do ventre.

O mais bravo dos guerreiros foge como uma barata quando se defronta com a náusea. Elas nunca tiraram vantagem do fato de - grávidas - assumirem o ônus de carregar no interior o peso de uma nova vida. Vantagem, no máximo, um desejo de uma fruta fora de época, a desoras. Mas a que preço: vencer a náusea. Que força!

Que formidável embate o de seu próprio corpo contra um invasor. Um intruso que cresce sorrateiro dentro delas, deformando suas curvas gentis, transformando seu sangue. A transubstanciação se consome, o branco verte delas como um sinal de paz para alimenta o invasor. E este, enfim expulso, vira o ser amado. É tanto amor, que parece que elas quereriam ter de volta o intruso ao ventre, ao útero, ao coração.

Coube a elas, por todo o sempre, não só alimentar o fruto que era da árvore de ambos, dele e dela. Tinham de vencer também, sozinhas, a velha inimiga náusea, ao limpar os rejeitos do corpo desse novo ser.

Coube-lhes sempre, a elas, o alimento, o agasalho, o canto suave e o doce vaivém do colo para embalar os sonhos pequeninos. Tarefas de magia, capazes em si, cada uma delas, de apontar um caminho gentil para a humanidade.

Caminho em que a vitória não signifique destruir uma vida, um ser diferente, o próprio mundo ao redor.

Tarefas como a de prover o pequeno céu de uma limpeza, um banho de renovação diária, a temperatura da água sem estranhezas, morna como a vida, medida com as costas da mão.

E que cuidados, na interpretação de cada mínimo vagido ou balbucio. E ela, sentinela, um arsenal de gestos e milagres para dirimir o desconforto, a dor e as pequenas interrogações de quem começa a vida.

E foi assim que elas preparam sempre os seus rebentos. Ainda é assim, hoje em dia. Que o mundo tenha saído pela culatra, é um desalento. Acontece.

A elas é que cabe agora prover tudo

As coisas todas já não são tão nítidas. A simplicidade pouco faz par com o que é contemporâneo.

Os seres másculos e fortes que eram o arrimo delas - o pai, quer alguém aceite ou não - andam difíceis. Os homens são a cada dia mais meninos, a requererem delas o amparo, o colo. Eles iniciaram como que uma marcha à ré. Acabarão, quem sabe, no final dos tempos, flagelos nadando sem vontade em direção a um óvulo inexpugnável. Como um planeta ao fim de uma trompa qualquer, o óvulo de dura carapaça terá um aviso: "Entrada proibida a estranhos". São eles, somos nós, os estranhos.

A elas é que cabe agora prover tudo. (Já não é escandaloso, a muitos deles, em vez de visualizar o pai, ter a mãe como modelo.) Então, lá se vão elas à luta.

No campo de batalha, é tempo de mudança. As regras ainda não são claras. Elas e eles se digladiam, cada qual com suas armas.

Eles, com seu resto de arrogância. Elas, com a destreza acumulada em milênios de silêncio e consentimento.

Eles não perceberam, mas está próximo o fim. De uma era. Elas, há muito perceberam. Está próximo o começo.

Começo do quê, nem mesmo elas conhecem. Elas, que tudo sabem com a velocidade da intuição, a matéria que não se pode medir. Mas, enquanto isso, no campo de batalha....

Elas lutam. Abrem espaço com cotovelos e bíceps aprimorados nas academias. Ainda se insinuam a um ou outro espécime viril, mas é como que um hobby, quebra de fastio. É que elas se bastam a si mesmas. Ele, raça a caminho de volta para a infância e o nada, não é mais necessário..

Elas, reginae mundi, nào têm orgulho da vitória inglória. Debatem-se no crepúsculo com certa nostalgia. Ainda têm seu dia, uma data esquisita, mas não sabem bem o que celebrar. Nem como celebrar. Flores, são um sintoma do passado.

Nós, varões sem trono, graças a deus, temos é mais que a elas dar crédito. Não um dia, mas todos. Sem mágoas, ironias e, melhor ainda, nos aliando contra o rebotalho de nós que acha que ainda tem prerrogativas de lhes dar pancada e amor como uma bênção .

Então, salve rainhas!

Rainhas da jornada dupla e tripla. Vivam seu dia. Nós, seus súditos, estamos à espera de que por nós decidam e façam. Que já estão habituadas a todo o serviço. Intercedem por nós e por vocês mesmas, a quem quer que seja, pela humanidade, pelo humanismo.

Curvamo-nos à sua decisão. Certamente será melhor que aquela que nós impomos a vocês há tanto tempo.

Salve, rainhas! Venha a nós o vosso reino. E que ele seja próspero e eterno.

Edmilson Conceição
Jornalista, colunista de Economia Interativa
edorcon@uol.com.br

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Foto/AC/Economia Interativa


08/03/2010

 

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