O próximo leilão de energia nova pode sujar ainda mais a nossa matriz, e é a própria Aneel que admite isso, embora culpe o mordomo errado.
O leilão de energia nova que a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) deve realizar agora em dezembro pode ficar com uma tremenda cara de energia velha. Há um grande risco de concentração em empreendimentos baseados em fontes térmicas como óleo combustível, deixando o Brasil na "contramão da discussão mundial sobre a necessidade de redução de emissões de CO2. É uma contradição absurda. Talvez sejamos os únicos no mundo construindo usinas movidas a óleo".
O alerta e a afirmação acima não são de nenhum guru da nova economia ou de algum responsável do Greenpeace. São do próprio diretor da Aneel, Nelson Hubner, e foram publicados recentemente no jornal O Estado de S. Paulo. Apesar da constatação realista, é frustrante a conclusão a que o próprio Hubner chega sobre os motivos dessa situação.
Para Hubner, que desde o início do governo Lula trabalhou no Ministério das Minas e Energia (MME) como braço direito de Dilma Rousseff, a culpa disso são as dificuldades na obtenção de licenças ambientais para novas hidrelétricas. Chama a atenção que uma autoridade que esteve à frente da gestão do MME por quase sete anos não tenha percebido que foi a falta de uma visão moderna de política energética por parte do próprio governo que deixou o País nessa sinuca de bico, e não o aumento das exigências ambientais, que, aliás, não é um problema exclusivo nosso; é uma tendência mundial.
Por ter uma visão monolítica sobre a matriz energética nacional e um autocentrismo que o deixa isolado do que se passa no resto do mundo, o governo não percebeu que há vida inteligente para além do monótono ping-pong hídrica x combustíveis fósseis. Com uma exposição solar invejável e um potencial eólico de cerca de 70 mil MW (para se ter uma idéia do que isso significa, a capacidade total instalada do país é de cerca de 100 mil MW), o Brasil é um dos países com maior potencial mundial para o desenvolvimento e a utilização de energia limpa. Mas, o governo, que agora surpreeende-se com os projetos a óleo combustível que devem inundar o leilão de dezembro, nada fez esses anos todos para estimular a produção de energia intensiva a partir de fontes limpas.
É caro, argumentarão os técnicos que defendem a decisão adotada pelo governo, pensando no preço final para o consumidor. Mas uma térmica a óleo também não é nada barata. Da última vez que as térmicas a óleo foram chamadas a operar, na seca de janeiro de 2008, durante o auge da atividade econômica mundial, o preço do petróleo tornou sua operação três vezes mais cara que o custo de geração de uma eólica.
Isso sem falar naqueles custos que nunca entram nessa conta: os prejuízos para o meio ambiente, os danos à qualidade de vida das pessoas que residem nas imediações de uma térmica e as consequências a longo prazo de ficarmos cada vez mais para trás no que já é considerada a grande competição que vai impulsionar a economia mundial nas próximas décadas: a corrida pela energia limpa e barata.
Geradores sob o asfalto
Olhando para o mundo que anda para frente, leio na internet que pesquisadores israelenses acabam de realizar um teste bem sucedido gerando energia a partir da pressão exercida por veículos sobre o piso de ruas e rodovias. Inspirada nas propriedades piezelétricas dos materiais, que permitem converter energia mecânica em energia elétrica, a nova técnica é mais barata que a instalação de eólicas e painéis solares, pois as placas são instaladas a apenas 5cm de profundidade no asfalto.
Além disso, o sistema não exige a construção de grandes extensões de linhas para ligar a geração à rede, pois o local de geração está sempre muito próximo aos pontos de consumo (as baterias de armazenamento são instaladas sob a calçada, podendo ficar mesmo embaixo dos postes da rede elétrica). E isso sem falar na vantagem de não se depender de condições climáticas para gerar energia.
O teste realizado numa rua do centro de Israel sem o conhecimento dos motoristas utilizou uma placa com apenas 13m de comprimento, que foi capaz de gerar energia para iluminar um trecho da própria via. Os pedidos já chegam de todas as partes do mundo, mas, os pesquisadores do Technion (Instituto de Tecnologia de Israel) e da empresa Innowattech, parceira na pesquisa, querem, primeiro, realizar um programa-piloto com um trecho de um quilômetro. De acordo com os técnicos, uma superfície dessas seria capaz de abastecer de energia 2,5 mil casas.
Os geradores podem ser instalados sob o asfalto e sob calçadas, convertendo em energia tanto a pressão exercida por veículos como por pessoas. Aliás, no Japão também há um projeto parecido que foi testado com sucesso num trecho de rua fortemente utilizado por pedestres.
Pode não ser para amanhã, mas, ao que tudo indica, o mundo parece que vai se salvar. Já o Brasil...
Carlos Vieira
Jornalista, diretor da Insight
chvieira@gbl.com.br
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03/11/2009