O setor calçadista brasileiro iniciou o ano com apreensão. No fim de 2008, as exportações caíram entre 20% e 25% devido à turbulência cambial. Importadores e exportadores foram especialmente atingidos. As incertezas com relação ao dólar persistem e deverão prosseguir até abril, quando o cenário poderá melhorar. Os dados sobre o comportamento do setor calçadista, no ano passado, só estarão prontos em meados de fevereiro, mas já se sabe que houve queda no número de postos de trabalho. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, entre 10 mil e 15 mil postos foram fechados na cadeia produtiva calçadista nacional no ano passado.
Em março, o setor participará de feiras internacionais importantes no Hemisfério Norte. As empresas brasileiras estarão em situação vantajosa, já que a moeda nacional não sofreu grandes impactos. O dólar valorizado poderá gerar bons negócios no mercado exterior para o setor calçadista. O mercado interno, no entanto, continua sendo o principal alvo para as empresas da cadeia produtiva de calçados em 2009: 75% de sua produção são destinados aos consumidores brasileiros. As importações cresceram 47% em valor e 37% em volume, em relação a 2007, e a indústria calçadista teve queda na produção voltada ao mercado doméstico no ano passado.
A queda das exportações nos últimos meses se deve à volatilidade do dólar e atinge todos os pólos calçadistas exportadores. Até março, essa tendência continua. Em abril, há chances do movimento se inverter e as exportações voltarem a crescer. Apesar de tudo, os efeitos da crise internacional não foram sentidos na cadeia produtiva nacional de calçados. O efeito na queda das exportações tem que ser atribuído, por ora, à volatilidade da moeda.
A avaliação acima é do diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, feita em entrevista à Agência Sebrae de Notícias.
Como o setor calçadista nacional encerrou 2008?
Ainda estamos sem os números, mas podemos dizer que 2008 foi encerrado com expectativas muito altas, mas com performance ruim. Tivemos pequena queda na produção para o mercado doméstico, devido à crescente entrada de produtos importados, e estabilidade do consumo. A importação de calçados em 2008 cresceu 47% em valor, e 37% em volume. A sensação foi de estabilidade. A queda nas exportações ficou em torno de 2% em valor, e pouco mais de 6%, em quantidade, em relação a 2007. Em novembro e dezembro passados, houve queda nas exportações entre 20% a 25%, causada pela volatilidade da moeda no final do ano. Esse fator nos pegou exatamente no momento em que estávamos negociando os embarques dos produtos Primavera-Verão, a partir da segunda quinzena de novembro. O sobe e desce retraiu os importadores. Os exportadores não tinham como calcular o preço adequado. Isso prejudicou fortemente o setor no fechamento do ano. Estamos aguardando os dados do IBGE. Teremos os dados do setor referentes a 2008 em meados de fevereiro, quando poderemos fazer uma melhor avaliação sobre o que ocorreu.
O que aconteceu com o número de empregos do setor em 2008?
Em termos de postos de trabalho, sabemos que houve perda em 2008, por conta da diminuição do nível de atividade na exportação e importação. Estimativa referente ao saldo líquido das empresas aponta que entre 10 mil e 15 mil postos de trabalho foram fechados durante o ano passado, de acordo com dados do Caged. O IBGE sinaliza que houve queda de 7,3% nos empregos gerados pela indústria calçadista.
Qual é a perspectiva do setor, neste início de ano?
O cenário de incerteza do final do ano deverá permanecer nos mercados interno e externo durante o primeiro trimestre de 2009. Variações desse quadro devem acontecer a partir de abril. As principais feiras internacionais do setor calçadista começam no hemisfério Norte em março. O Brasil terá situação vantajosa nessas feiras, principalmente em relação a preço, pois a moeda brasileira não foi tão atacada. Nesses eventos os grandes concorrentes dos nossos produtos são Índia, China, Itália, Espanha e Portugal, que produzem e exportam calçados. O Brasil vai se apresentar em condição muito favorável de negociação. O circuito de feiras começou na semana passada em Riva de Garda, no norte da Itália, quando confirmamos essa tendência favorável dos calçados brasileiros. Os outros países estavam tímidos. As próximas feiras serão Las Vegas (EUA), GDS (Alemanha) e Moda Calçado de Madri, todas em março.
O que esperar especificamente do primeiro trimestre?
Estamos apreensivos, querendo que passe logo o primeiro trimestre, que se afigura muito ruim. Conviver dois meses com dispensa de funcionários é difícil. Em abril e maio, voltamos a crescer e o pessoal será readmitido. Acredito que poderemos voltar ao cenário dos anos 2000 a 2002, quando houve crescimento acentuado da indústria calçadista, entre 15 % a 18%.
Afinal, os efeitos da crise internacional chegaram ao setor calçadista?
Não sentimos os efeitos da crise internacional no setor. O efeito na queda das exportações tem que ser atribuído, por ora, à volatilidade da moeda. Esse fator afeta de maneira uniforme todos os pólos calçadistas exportadores. Infelizmente essa situação deve continuar até março. Em abril, a situação começará a melhorar.
Qual é a importância do mercado interno?
O mercado doméstico brasileiro é um grande mercado. 75% da nossa produção destina-se ao mercado interno. A importação que se verifica se dá por causa do preço e muitas vezes de forma desleal. Estamos sempre atentos e oferecendo produtos de valor e com preço adequado ao mercado doméstico.
Como foram os resultados da Couromoda 2009, realizada no mês passado?
O resultado foi satisfatório. Houve queda razoável no volume de visitantes, mas os resultados de negócios foram bons na Couromoda. Foi um bom indicador, que fundamenta a experiência que temos no setor. Se tudo se confirmar, a partir de junho e julho teremos a volta da rotatividade dos negócios que estavam estagnados desde 2004, devido ao câmbio desvalorizado.
A redução de 1% na taxa Selic foi bem recebida pelas empresas calçadistas?
As medidas que mais fortemente têm impacto na indústria são as que mexem nos custos. Nosso setor depende pouco de crédito, a não ser das linhas normais de exportação, ou quando há crescimento no nível de investimentos, coisa que não ocorre agora. A cadeia produtiva de calçados é curta, mas há razoável acumulação de custos financeiros, que se agregam ao valor do produto. Nas vendas ao mercado externo é importante, pois nossos concorrentes têm taxas de juros inferiores às nossas. Esperamos que a Selic continue a cair até chegar no nível de 5% ou 6%. Esse é um dos poucos mecanismos que o Banco Central tem para combater a inflação. A oferta de crédito, no entanto, tem impacto relativo no processo inflacionário. Há outros componentes de expressão mais forte nesse sentido, como o custo tributário. Os bancos se adequarão à nova realidade. A oferta de crédito não é prioritária para nosso setor, mas as taxas de juros são.
Que conselho o senhor dá aos empresários do setor calçadista, neste momento?
Minha visão do cenário atual é segmentada. Não há um mar de rosas, mas o quadro permite avaliação positiva. Estamos hoje e a partir de abril em melhores condições de competir do que no ano passado. Aconselho os empresários do setor a continuar investindo na promoção comercial e na agregação de valor aos seus produtos. Estabeleçam marca própria. O mercado interno brasileiro é um grande mercado. No último semestre, nosso setor teve acumulação interessante nas vendas. O possível esgotamento ou redução de vendas em outros setores pode liberar consumidores e aumentar o consumo no setor calçadista.
Vanessa Brito
Agência SEBRAE de Notícias (ASN)
15/02/2009