Além das questões internacionais a cadeia farmacêutica brasileira está envolta em desafios e tarefas. Na avaliação do presidente-executivo da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica
(Febrafarma), Ciro Mortella, o ano de 2009 deve ser complicado. "Pode ser que o mercado recue ou evolua com uma velocidade menor. Ainda não dá para saber. Há aspectos cruciais para a cadeia farmacêutica: como ficam as questões de estoque, crédito e capital de giro na indústria, atacado e varejo? Outra preocupação evidente é com o que vai acontecer na ponta do mercado. Não há dúvida de que haverá retração de demanda, mas não sabemos se será significativa, que tipo de produto vai ser atingido ou, se, ao contrário, algum segmento do mercado farmacêutico será favorecido. Fala-se que os genéricos vão vender mais. Não sabemos ainda quem serão os losers e os winners do mercado nessa crise. Alguma coisa vai acontecer na ponta, mas estamos tentando entender o que. Há uma preocupação também com os investimentos".
Mortella lembra que o setor farmacêutico tem características próprias. "Na crise cambial de 1999, por exemplo, tivemos uma mudança simultânea de mercado por conta da introdução dos genéricos. Ao mesmo tempo em que o problema cambial determinava instabilidade de custos, os genéricos produziram uma mudança mercadológica importante. Pode ser que a mesma coisa aconteça agora, por conta de movimentos feitos pela indústria no sentido de se recolocar no mercado".
O executivo avalia também as características no negócio frente à realidade da crise financeira internacional. "É evidente que, em termos de queda, o setor de medicamentos não sofre o mesmo impacto do de eletrodomésticos ou de carros - mas sempre há uma queda no consumo, na medida em que as pessoas perdem seu emprego, seu plano de saúde. Quanto às empresas, existe uma redução mundial de recursos e elas terão de gerenciar muito bem seus investimentos em pesquisas, por meio de parcerias e alianças".
José Abdallah, da Abrifar, é econômico e direto. "As indústrias deverão desenvolver pesquisas sobre novas moléculas para atender à demanda da população, aliar desenvolvimento tecnológico às políticas de acesso aos medicamentos e aumentar o acesso dos genéricos à população. Empresas privadas e sociedade devem se mobilizar para que os preços dos medicamentos sejam mais baixos.
Por enquanto o setor não sofreu grandes impactos, mas a preocupação é que não evolua, provocando queda na produção e no emprego. Se continuarem os esforços por parte do governo, como vêm sendo feito há cinco anos, o cenário da indústria não terá grandes oscilações. "A indústria farmacêutica nacional possui 49% de market share e a tendência é que ela continue a crescer, pois ainda há escassez de acesso aos medicamentos por parte da população. Quando se melhora o acesso aos medicamentos, a indústria nacional é estimulada", diz Figueira. E conclui com a observação de que em toda a cadeia a carga tributária é de 37%. "Se o governo não quiser prejudicar o setor, os impostos deverão ser reduzidos".
Ana Greghi
anagreghi@economiainterativa.com.br
Foto Ciro Mortella. Divulgação/Febrafarma
15/02/2009