Ribeirão Preto, em São Paulo, e a maioria dos municípios vizinhos já não fazem questão de sustentar o apelido de Califórnia Brasileira, dado à região nos anos 1980. Mas seus moradores pelejam para manter antigas conquistas, como o bom padrão de vida, o potencial de seu enorme pólo sucroalcooleiro e o direito de continuar promovendo a Agrishow, o maior evento anual do agronegócio do País, cuja 16.ª edição está confirmada para 27 de abril a 2 de maio próximos. Avenidas modernas, edifícios elegantes, mansões, shoppings, restaurantes, bares movimentados: apesar de tudo, a cidade de Ribeirão Preto continua irradiando bom humor, um estilo de capital que se mistura com a simplicidade do interior.
Problemas, no entanto, não faltam. Apesar do luxo de alguns bairros, como os situados adiante da Avenida 9 de Julho, a cidade convive também com o desemprego, favelas e alto índice de criminalidade. Os últimos anos foram tão rudes com ela quanto com a verdadeira Califórnia, a norte-americana - que, atrelada à crise dos Estados Unidos, vive convulsões típicas dos pesadelos produzidos nos filmes de sua Hollywood.
Distante 313 quilômetros da capital São Paulo, com cerca de 560 mil habitantes, Ribeirão já teve sonhos de menina rica mas mantém a esperança e a garra para lutar contra as recentes dificuldades. É um dos dez municípios mais populosos do estado e sua influência abrange um raio de 150 quilômetros, que engloba mais 80 cidades, com um total de mais de 3 milhões de habitantes.
Despedida
Ribeirão Preto foi vítima de "fogo amigo" no fim de 2008. Outro destacado município do interior paulista, São Carlos, que fica a 99 quilômetros de Ribeirão e, portanto, dentro do seu raio de influência, articulou e conseguiu, junto ao governo federal, a transferência da Agrishow para seu território a partir de 2010. Um bom negócio que inclui muita política e bastante prestígio.
Desde 1994, Ribeirão tem sido a sede de todas as edições da Agrishow, que reúnem fazendeiros, industriais e políticos por seis dias e chega a atrair até o presidente da República e ministros. Numa área de 240 mil metros quadrados, o Centro de Cana do Pólo Regional de Desenvolvimento Tecnológico, a 15.ª edição, em 2008, teve 800 expositores, movimentou R$ 800 milhões e foi visitada por mais de 140 mil pessoas do Brasil e de outros países.
O apoio é da prefeitura de Ribeirão Preto e dos governos federal e estadual, por meio do Ministério da Agricultura e da Secretaria da Agricultura, além da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). A organização cabe à Reed Exhibitions Alcântara Machado, empresa que também promove grandes eventos no Parque de Exposições do Anhembi, em São Paulo.
Neste ano, a Agrishow será no mesmo local, talvez com público ainda maior, a partir de 27 de abril. O clima, porém, deverá ser de despedida, pois a prefeitura de São Carlos articulou-se com o governo federal e conseguiu conquistar, junto ao Ministério da Agricultura, o direito de promover a Agrishow de 2010 em diante.
Na virada do milênio, nem de longe se pensava em mudar o local da feira. O Brasil era presidido por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, e Ribeirão Preto era administrada pelo prefeito Antonio Palocci, do PT. Nos últimos quatro anos, a prefeitura ribeirão-pretana esteve nas mãos de Welson Gasparini, do PSDB, derrotado nas eleições de outubro de 2008 pela candidata Dárcy Vera, do DEM. Por sua vez, o município de São Carlos, de 220 mil habitantes, teve como prefeito, até 1.º de janeiro, Newton Lima Neto, do PT, que conseguiu fazer seu sucessor, o também petista Oswaldo Barba.
No ano passado, Lima foi recebido em Brasília pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que ao ver fotos do projeto para a construção da Cidade da Bionergia de São Carlos, com área dez vezes maior que a das instalações de Ribeirão Preto, anunciou seu apoio à obra, tendo ao lado o atual presidente da Embrapa, Sílvio Crestana, natural de São Carlos, e o presidente da Abimaq, Luiz Albert Neto.
Partidos políticos à parte, São Carlos é um dos melhores e mais evoluídos municípios do Brasil. E a Cidade da Bioenergia, de acordo com a prefeitura e empresários, será inaugurada em abril de 2010 não só para a Agrishow. O ex-prefeito Lima explica: "Teremos eventos no local durante todo o ano, atraindo delegações nacionais e estrangeiras para negócios, cursos e exposições."
Assim como no futebol, atividade em que os clubes de Ribeirão Preto -Comercial e Botafogo - tiveram bons times e construíram estádios, mas descuidaram e sofreram a decadência, não há dúvidas: houve saturação do antigo local da Agrishow, que, com o tempo, ficou acanhado, detalhe explorado por São Carlos. A nova prefeita de Ribeirão, Dárcy Vera, empossada há pouco mais de um mês, ainda não desistiu de lutar para reverter a situação e buscou ajuda até do atual deputado federal petista Antonio Palocci, ex-prefeito e ex-ministro da Fazenda, para tentar convencer o governo federal a mudar de idéia, algo difícil.
A alternativa é apontada pelo sempre otimista presidente do Ribeirão Preto e Região Convention & Visitors Bureau, Márcio Santiago. "Nossa cidade é o local ideal para a Agrishow, como já demonstrou tantas vezes", analisa Santiago. "Poderemos promover outros eventos desse tipo".
De olho na valorização do turismo local, Santiago pleiteia para Ribeirão a condição de possível sub-sede da Copa do Mundo de 2014. Ele preparou um livro com versões em inglês e espanhol sobre as qualidades da região e tratou de enviar exemplares para a FIFA e para as 204 confederações filiadas à entidade. "Uma vez que São Paulo será uma das sedes do Mundial, vale a pena mostrar que Ribeirão está a meia hora de vôo da capital, conta com dois bons estádios para treinos e com recursos de hotelaria para hospedar pelo menos uma das seleções", explica o empresário.
Em março, a FIFA escolherá as sedes e sub-sedes. Em 21 de janeiro, Ribeirão, ribeirão marcou um gol: o jogo de abertura do Campeonato Paulista, Palmeiras x Santo André, foi realizado, com sucesso, no Estádio Santa Cruz, do Botafogo, um dos melhores do estado.
Mineiro de Juiz de Fora, Márcio Santiago é diretor de uma construtora, mora em Ribeirão Preto desde os anos 1970 e faz do Bureau uma entidade para atrair eventos turísticos e de negócios para a região. Vale a pena manter o apelido Califórnia Brasileira? Ele responde: "Muitas pessoas de Ribeirão não gostam desse título, que foi difundido por iniciativa da grande mídia de São Paulo. Porém, prefiro que nos identifiquem como uma cidade pujante do que uma cidade decadente. É claro que o apelido atraiu muitos aventureiros. Mas nós precisamos estar preparados para o destino e saber administrar o sucesso."
Além da Agrishow, Ribeirão conta com dois outros grandes eventos anuais, estes sem qualquer ameaça: o Carnabeirão e a Feira do Livro. O Carnabeirão, um Carnaval fora de época que atrai jovens de todo o Brasil, desta vez acontecerá entre 4 a 6 de abril, com trios elétricos, bandas, blocos e cantores. Já a Feira Internacional do Livro, criada em 2001 pelo então prefeito Antonio Palocci e seu secretário da Cultura, Galeno Amorim, será de 18 a 28 de junho, época em que a tradicional Praça XV será novamente tomada por estandes de editoras, dezenas de escritores e milhares de visitantes. Graças a essa feira e à criação de bibliotecas, Ribeirão passou a ter um índice de leitura de livros bem acima da média do Brasil.
Luiz Carlos Ramos
lcramos@economiainterativa.com.br
Foto Márcio Santiago: Luiz Carlos Ramos
09/02/2009