Consumo

Base sólida para crescer

A história da Alpargatas começou na Argentina em 1883, com o engenheiro escocês Robert Fraser e o espanhol Juan Echegaray

 

Controlada pelo grupo Camargo Corrêa, que detém 44,1% do capital total - 67% das ações ordinárias e 20% das preferenciais - a São Paulo Alpargatas é um complexo de seis fábricas de calçados e tecidos no Brasil que emprega 13 mil pessoas. A companhia tem 10% do mercado de calçados esportivos no País. Em 2007 sua receita bruta foi de R$ 1,6 bilhão; de janeiro a setembro de 2008, as vendas atingiram R$ 1,32 bilhão, contra R$ 1,10 bilhão nos primeiros nove meses de 2007. As operações internacionais, representaram 9% do faturamento total da companhia e 15,5% do volume de vendas de calçados.

A história da Alpargatas começou na Argentina em 1883, com o engenheiro escocês Robert Fraser e o espanhol Juan Echegaray. Esse último teve a idéia de produzir uma sapatilha rústica e barata - de lona com solado de juta - semelhante às usadas pelos camponeses de seu país. Depois de abrir uma filial do Uruguai (1890), os dois sócios se instalaram no Brasil, em 1907, comprando uma importadora de tecidos, a Edward Asworth e Cia. O carro-chefe de vendas eram as alpargatas - com o Rueda da marca original devidamente traduzido para Roda. Os distribuidores da produção da empresa eram os atacadistas da rua Paula Souza, então importante centro do ramo da cidade de São Paulo.

O operação brasileira ganhou importância depois da II Guerra Mundial. A matriz argentina entrou em rota de colisão com Juan Domingo Perón, logo no início do primeiro mandato dele como presidente do país(1946/1952) e o centro de decisões foi transferido para o Brasil.

Nos anos que se seguiram a administração foi marcada por passos cautelosos, mas seguros e sempre de acordo com as oportunidades. O algodãozinho em peças, por exemplo, cabia num país no qual mais da metade da população ainda vivia no campo - situação que perdurou até a década de 1960. Os encerados de lona para caminhões - que se popularizariam sob a marca "Locomotiva" - foram lançados quando os primeiros caminhões começavam a chegar ao País impulsionando o transporte rodoviário de cargas.

Havaianas, unanimidade

No final da década de 1950, as Alpargatas Roda já não eram bem aceitas em um País acelerava a urbanização e a empresa percebeu que seu primeiro e longo ciclo de vida estava encerrado. Sua primeira reinvenção data de 1959, quando lançou uma de suas marcas mais bem sucedida, longeva já de meio século, a dos calçados Conga. Popular como a alpargata, tinha a diferença de vir com solado de borracha - oriundo de uma fábrica própria de São José dos Campos (SP). Na mesma época a companhia passou a ter confecção própria - extensão natural para quem firmara reputação como fabricante de tecidos.

Pressentindo oportunidade no então nascente mercado de jeans, lançou calças com marca própria - Rancheiro, Far West, Rodeio e Topeka - que utilizavam o brim Coringa, muito bem aceito por ser o primeiro de seu gênero sanforizado, isto é, pré-encolhido. Acertou no geral mas errou no particular: as calças não foram bem aceitas porque seguiam padrão de modelagem americano e não combinavam com a constituição física dos brasileiros. O engano seria corrigido em 1972, com o lançamento da linha Us Top, de calças e jaquetas jeans - essa sim um sucesso de vendas - que seria ampliada, dez anos depois, com camisas, depois de a Alpargatas ter assumido um projeto inacabado de uma camisaria do Nordeste.

Nessa sua reinvenção, a Alpargatas lapidou o que se tornaria a jóia da coroa, a sandália Havaianas, uma criação própria, sem similar. Lançada em 1962, tornou-se uma unanimidade. Tanto que em 1980 uma pantry check - pesquisa na residência dos consumidores relacionando os artigos possuídos - revelou que havia pelo menos um par delas nas residências do Rio de Janeiro e de São Paulo. Outro segmento importante, o dos artigos esportivos, seria ocupado nos anos de 1970, com o lançamento da marca Topper (1975) e a compra da Rainha, tradicional fabricante de tênis (1979).

Compra da matriz

Logo depois do Plano Real, que redesenharia os padrões de consumo de massa no Brasil, a Alpargatas precisou se reinventar pela segunda vez. Em 1997, ao cravar um prejuízo de cerca de R$ 90 milhões em valores da época, passou por profunda cirurgia, desfazendo-se de operações deficitárias e reduzindo sua força de trabalho, de 23 mil para 10 mil empregados. Após a turbulência, mudou a cultura fabril, orientada para a produção, e se voltou ao cliente, revisou o modelo de negócios e reposicionou a marca.

"Investimos pesado em marketing a construção da imagem de Havaianas", conta o gerente de Relações com Investidores, José Sálvio Ferreira Moraes. Deu certo, tanto que a empresa chama de "fase de crescimento" esse período de 1997 a 2002. Foi nesse período que a marca Havaianas ganhou mundo e se transformou em ícone da moda pop, adotada por celebridades de várias artes.

Na crônica mais recente, o fato mais importante para a companhia ocorreu no final de outubro do ano passado, quando as relações entre os dois ramos da Alpargatas mudaram de rumo. Com a arovação do Comisión Nacional de Defensa de la Competencia da Argentina (CNDC) órgão fiscalizadorda concorrência, similar ao CADE brasileiro a São Paulo Alpargatas assumiu o controle da Alpargatas Argentina, sua antiga matriz, com a aquisição de 60,17% do controle.

Com essa aquisição vieram 11 fábricas - uma delas no Uruguai, com cinco mil funcionários - a nova Alpargatas tornou-se líder do setor de calçados na América do Sul, com 19 mil funcionários, 150 mil pontos-de-venda e atuação em 80 países. Segundo os dados de 2007, o faturamento das duas companhias é de R$ 2,1 bilhões (R$ 406,4 milhões da Argentina) e a produção anual de 250 milhões de pares de calçados e sandálias (11 milhões de pares da Argentina).

Ana Greghi
anagreghi@economiainterativa.com.br


01/02/2009

 

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