Consumo

Riqueza trazida na manha

Na primeira metade do século XX, mesmo abalado com a crise de 1929, o café conquistou espaço no sul de Minas, no oeste paulista, a partir de Marília, e dominou o recém-colonizado Norte do Paraná

 

Faz mais de 150 anos que o café é uma das riquezas do Brasil. A chegada das primeiras sementes ao País está cercada de lendas, mas tudo indica que houve uma dose de malandragem do militar português Francisco de Mello Palheta para garantir a introdução dessa cultura em terras brasileiras. Em 1727, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal, o tenente Palheta, então com 57 anos, foi encarregado pelo governador-geral do Maranhão e do Grã-Pará, João Maia da Gama, de ir a Caiena, Guiana Francesa, tentar acertar a demarcação da fronteira entre o Brasil e aquela colônia, na altura do Amapá. Bem recebido pelo governador da Guiana, Claude Guillouet, conde de Orvilliers, ele recorreu aos termos do Tratado de Utrecht para definir os limites de cada território. No entanto, diz a lenda que, paralelamente a essa missão, Palheta teria sido também encarregado de trazer sementes de café, planta originária da África e que já era produzida em colônias francesas do Caribe. O tenente conquistou a simpatia da esposa do governador, Marie-Claude de Vicq, de quem teria recebido algumas sementes.

Em sete anos, o próprio Palheta já tinha mil pés de café no Pará. Essa cultura avançou pelo Maranhão e por vários estados do Nordeste, mas começou a ganhar força, de fato, quando chegou ao Estado do Rio, no século XIX. Fazendas do Vale do Paraíba ficaram potências do café. A planta avançou pelo estado de São Paulo, tomou conta de Campinas e seguiu rumo às regiões de Ribeirão Preto e Franca, que já dispunham de boa infra-estrutura de transporte - os trilhos da Companhia Mogiana. Para tocar as lavouras, os fazendeiros utilizavam os imigrantes italianos substitutos da mão de obra escrava após a Lei Áurea.

Na primeira metade do século XX, mesmo abalado com a crise de 1929, o café conquistou espaço no sul de Minas, no oeste paulista, a partir de Marília, e dominou o recém-colonizado Norte do Paraná, tornando-se a base do impulso de cidades jovens, como Londrina e Maringá.

A grande geada de 1976 dizimou cafezais no Paraná e no interior paulista, levando a maioria dos agricultores a mudanças: alguns optaram por acabar com o café; outros, a trocar de terras, partindo para Minas, Bahia, Espírito Santo e até para o distante Estado de Rondônia. Hoje em dia, os cafeicultores continuam enfrentando as oscilações climáticas, mas são beneficiados por novas técnicas. Essas técnicas dão dinheiro, mas também custam dinheiro. É por isso que os cafeicultores de hoje em dia não desgrudam dos aparelhos de TV que mostram a previsão do tempo, a cotação do café no mercado internacional a cada minuto e o valor do dólar. No mundo globalizado, a informação vale ouro e ajuda, pelo menos, a prevenir sobre a chegada de uma nova crise.

Luiz Carlos Ramos

lcramos@economiainterativa.com.br


21/01/2009

 

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