Consumo

Boa performance não ajuda o café

A qualidade melhorou, a safra é quase recorde, mas produtores reclamam do aumento dos insumos

 

O café brasileiro continua forte, cada dia mais saboroso, mas corre o risco de esfriar na xícara. A advertência é dos produtores, que lamentam o fato de, exatamente na época em que o País encerrou a colheita da segunda maior safra de sua história - perto de 46 milhões de sacas de 60 quilos -, a crise econômica mundial se abateu como praga em cima dos cafezais. O governo federal até que foi ágil ao tentar atenuar os problemas dessa, mas os estragos são enormes. Os analistas prevêem que o Brasil manterá o primeiro lugar entre os maiores produtores de café do mundo e consolidará a fama de aprimorar a qualidade, mas os mesmos proprietários rurais acostumados a enfrentar geadas, chuvas demais, chuvas de menos, alta carga tributária, variação do dólar, preços elevados dos insumos e dificuldades para exportação, dizem estar no epicentro da maior crise das últimas décadas.

Não é em nada comparável ao "crack" da Bolsa de Nova York de 1929, cujos efeitos atingiram os antigos barões do café paulistas e iniciaram a troca de mãos das fortunas brasileiras, da agricultura para a indústria. O café do Brasil, além de não mais a jóia da coroa das exportações, não mantém mais barões, mas vive principalmente do trabalho de pequenos e médios produtores. Mais da metade da produção brasileira, agora, sai das lavouras de Minas Gerais: Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e Zona da Mata.

Os números do setor são espetaculares, em quantidade e qualidade: a atual safra é 27,5% maior que a anterior e só perde para a histórica colheita de 2002, que chegou a 48,5 milhões de sacas. Uma vez que a cafeicultura está acostumada à realidade de as boas colheitas serem bianuais - safras volumosas deixam as árvores estressadas para o período seguinte -, espera-se para 2008/2009 resultado mais modesto. Pelas primeiras previsões da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ficar entre 36,9 e 38,8 milhões de sacas, o que significa redução de 15,6% a 19,8%.

Cerca de dois terços, mais exatamente 64,16%, da produção nacional são exportados. De acordo com os números do Conselho de Exportadores de Café (Cecafé) em 2008 foram vendidas 29,4 milhões de sacas para o exterior, produzindo receitas de US$ 4,7 bilhões, com alta de 4,4% e 23% respectivamente sobre o ano anterior. Os grandes compradores internacionais - os principais são Alemanha, Itália, EUA e Japão - elogiam as providências do Brasil para melhorar a qualidade do seu café, hoje já não derrotado pelo marketing da Colômbia, que abusou do título de "melhor do mundo" nas cafeterias da Europa. A modernização das lavouras e a evolução do processamento do café brasileiro reverteram em aprimoramento do produto. Paralelamente, o café ficou na moda no Brasil, onde o consumo anual aumentou 4,5% em 2008, chegando a 18,8 milhões de sacas. A previsão da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) é de que, em 2010, dependendo das conseqüências da crise internacional, o País alcance os Estados Unidos, líderes mundiais em consumo com 21 milhões de sacas/ano.

Medidas a reforçar

Diante de um panorama tão positivo, onde e como apareceram os problemas? O engenheiro-agrônomo Carlos Alberto Paulino da Costa, presidente da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), a maior cooperativa de produtores de café do mundo, com mais de 11.500 produtores em 101 municípios mineiros e paulistas, explica: "A oscilação do dólar, a partir de outubro, mexeu com os preços dos insumos, aliados tão importante para a produção de café de qualidade, e as dívidas dos agricultores acabaram crescendo. Insumos, como adubos, são importados e ficaram mais caros com o dólar alto. Produtor sem dinheiro é risco de problemas sociais e de prejuízo à qualidade do produto. Temos pequenos agricultores que cuidam da lavoura com a família e vivem só disso. As pressões são grandes." Paulino reconhece que o governo federal, por meio do Ministério da Agricultura, tem procurado atenuar a gravidade da situação, mas as medidas tomadas "precisam ser reforçadas".

Em dezembro, o ministro Stephanes reuniu-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para alertá-lo de que a crise internacional já afetava bastante o agronegócio. "O café não é exceção", lamentou Stephanes. "Uma pena isso acontecer agora, época em que o mundo reconhece a qualidade de nosso café e pede que aumentemos a produção". Nos últimos dias do ano, o Ministério da Agricultura liberou R$ 222,9 milhões de recursos do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé). Desse total, R$ 191 milhões foram destinados às linhas de estocagem, R$ 14,3 milhões ao Financiamento para Aquisição de Café (FAC). Para as lavouras afetadas por chuva de granizo no Sul de Minas, foram encaminhados R$ 17,5 milhões, que reforçaram os R$ 60 milhões liberados anteriormente. Em todo o ano de 2008, o Funcafé repassou R$ 2,3 bilhões para a cafeicultura, sendo R$ 294 milhões para o financiamento de custeio e R$ 352 milhões para a colheita. A estocagem totalizou R$ 1 bilhão e o financiamento para aquisição de café, R$ 277 milhões.

Produtores, cooperativas e indústrias torrefadoras podem participar do financiamento governamental. No caso da linha de estocagem e do FAC, os interessados deverão procurar os bancos até 31 de janeiro de 2009. Já os beneficiários das linhas de financiamento das lavouras afetadas por chuva de granizo têm até 31 de março para procurar um agente financeiro.

Luiz Carlos Ramos

lcramos@economiainterativa.com.br


20/01/2009

 

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