Se eu não estou enganado na leitura e nos conceitos (ou nos fundamentos, como virou chique dizer), o Nobel e estelar Paulo Krugman, colunista do New York Times, defende com todas as suas garras, na entrevista publicada neste domingo, 06 de setembro, no Estado de S. Paulo, o capitalismo de estado na sua forma mais cruenta, para tirar da UTI o liberalismo que infestou os Estados Unidos e espalhou variadas infecções no Planeta.
Defende que o despejo de um balde de U$ 1 trilhão do Estado nos balões de oxigênio da economia norte-americana permitiria ao paciente sair do hospital e, no outro dia, digamos, correr a São Silvestre, ganhar o prêmio e devolver aos norte-americanos pelo menos dois baldes equivalentes cheios de dólares.
Não é uma boa metáfora, mas serve para se contrapor à ligeireza com que o professor da Universidade de Princeton, na entrevista, desdenha da recente estabilidade alemã, que corta na carne porque tem memória do quanto já retalhou e lhe retalharam, entre duas guerras mundiais e outras tantas disputas dilascerantes ou diplomáticas, na convivência da vizinhança e adjacências.
Mas o melhor da entrevista a Leandro Modé, e que o Estado de S. Paulo elevou à manchete, são duas frases de Krugman. A primeira, "Ser o queridinho dos mercados financeiros é uma coisa perigosa", sobre a euforia das declarações do governo brasileiro de que, mais uma vez, o Brasil é a boa bola da vez. A segunda, respondendo à pergunta de Mondé, quanto ao Real estar sobrevalorizado, ele diz que estará estudando o assunto... provavelmente para espocar alguma platitude ofuscante sobre a platéia brasileira arregimentada pela IBM que o ouvirá, no próximo dia 16 de setembro.
As burras do Estado
Nos entretantos e nos principalmentes, deve-se dizer ao professor Krugman que aqui, no País globalizado, cozinha-se como sempre a feijoada liberal do Estado.
Os capitalistas brasileiros da indústria fervem com os impostos, com os juros do Banco Central, com o dólar abaixo de cu de cobra e com um mercado interno, promovido pelas bolsas das famílias, que teima em comprar mais do que podem produzir suas empresas, porque os bancos - especialmente os públicos - dão mais créditos (consignados e aleatórios) do que deveriam dar e, evidentemente, lucram muito mais, junto com o Estado, que lhes controla as burras, do que a indústria, o comércio e os serviços não financeiros.
Neste momento, todos clamam por barreiras comerciais, impostos aos importados, desonerações, financiamentos, embora discursem dia e noite, nos jornais, sobre suas definitivas inserções e sucessos definitivos no comércio global. Vão todos lá, nos ministérios, pedir a competitividade da caneta, por decreto ou melhor, como gostam a Presidência e o Ministério da Fazenda, por medida provisória. Igualzinho ao passado, quando reivindicavam reajustes de preços controlados pelo governo.
Por aqui, professor Krugman, o capitalismo se apropriou do Estado, apropriado pelo sindicalismo liberal de resultados e oportunidades operado por uma burguesia burocrata e sigilosa que acumula capital para investir no poder que transformará o País na maior democracia liberalsocialista da América Latina. Pode ser a sua nova tese e, quem sabe, lhe valer novo Nobel de Economia.
05/09/2010