Luiz Carlos Ramos
Jornalista. Colunista de Economia Interativa
lcr25@terra.com.br
Quem viaja de automóvel pelo Interior do Estado de São Paulo percebe no ar um agradável perfume que vem da vegetação em volta da estrada. No trecho de Araraquara a São José do Rio Preto, passando por Matão e Catanduva, a paisagem é marcada por extensos laranjais, após um longo trajeto caracterizado pelas lavouras de cana-de-açúcar.
O cheiro de flor de laranja ou de laranja madura também acompanha o viajante que, a partir de Matão, toma a direção de Jaboticabal, Bebedouro e Barretos. Esse eixo constitui o maior pólo de produção de laranja e de suco cítrico do Brasil e do mundo, responsável por grande parte dos dólares conquistados nas exportações do agronegócio. Qualidade e quantidade: quase sempre, as safras brasileiras de laranja constituem riqueza.
Quase sempre. Às vezes, o noticiário em torno da citricultura assume as características de uma gangorra semelhante ao brinquedo de madeira existente no parquinho de uma escola pública na entrada de Catanduva. Num momento, a cotação está no alto e os problemas não existem; noutra época, os preços caem e as dúvidas se multiplicam.
Concentração
As terras paulistas são férteis. São Paulo é um dos maiores produtores de café, cana-de-açúcar e soja do Brasil. Em laranja, é o campeão. A qualidade das rodovias e a infra-estrutura das cidades paulistas também contribuem para o sucesso do agronegócio. Neste caso, por que tantas oscilações, a ponto de haver época em que produtores de laranja preferem deixar a fruta apodrecendo no pé do que colher e vender a preço baixo?
Antes de tudo, é preciso separar a cadeia produtiva do suco de laranja, composta pelo fazendeiro produtor, pelos empregados fixos e temporários que cuidam da colheita e pela empresa processadora e exportadora do suco. Os fazendeiros e seus funcionários são brasileiros; as empresas de suco, não tanto.
Foi nos anos 1960 que, por causa das geadas que afetaram os laranjais da Flórida, nos Estados Unidos, a produção de laranja começou a ficar na moda no Brasil e, aparentemente, tornou-se lucrativa. Isso foi antes da febre da cana-de-açúcar provocada pela crise de petróleo e pela introdução do Proálcool.
A empresa norte-americana Lykes-Pasco, processadora de suco na Flórida, entrou em São Paulo e criou a Citrosuco, uma joint venture com o grupo alemão-brasileiro Fischer. A exportação de suco do Brasil subiu de modo incrível. Com isso, a laranja também passou a disputar espaço com o café no Sul de Minas.
O grupo Louis Dreyfus, criado na França em 1850 e consolidado nos Estados Unidos e em mais de 50 outros países, chegou ao Brasil há mais de 60 anos e agora conta com cerca de 15 mil funcionários permanentes e 10 mil só da época de safra, dedicando-se ao café, cana, algodão e citros. O suco de laranja está entre seus pontos fortes. Parte da Cutrale também é estrangeira. Já o Grupo Votorantim, da família Ermírio de Moraes, que entrou na área da laranja, é nacional. Essas empresas já foram acusadas de formar cartel, tal a sua concentração da produção.
Apodrecendo no pé
Os números são expressivos. Hoje, o Brasil é o maior produtor de laranja do mundo, tendo chegado a 18.279.309 toneladas na safra de 2007, mais do que o dobro dos Estados Unidos, que ficaram em 7.357.000 toneladas. O México aparece em terceiro lugar, com 4,1 milhões; a Índia em quarto, com 3,9 milhões; a China em quinto, com 2,8 milhões, seguida da Espanha, com 2,6 milhões.
Grande parte da produção de suco é originada em terras das empresas processadoras, que, no entanto, também compram laranjas dos fazendeiros médios e pequenos do Interior paulista. Não existe união entre esses dois lados da cadeia produtiva, já que os fazendeiros reclamam dos exportadores pelo "preço baixo" oferecido a quem produz a matéria prima do suco.
O fato é que, com frequência, fazendeiros anunciam a intenção de deixar a laranja apodrecendo no pé, pois, segundo eles, nem compensa pagar funcionários para cuidar da colheita. No entanto, fazendeiros e exportadores se uniram recentemente para tentar barrar uma ação na Justiça do Trabalho de Matão capaz de se tornar jurisprudência no território brasileiro: o Ministério Público do Trabalho propôs a contratação, pela indústria processadora de suco, da mão de obra que atua na colheita da fruta, mesmo que na propriedade de terceiros.
Isto pode ser o fim da terceirização e, consequentemente, deve originar uma sobrecarga nas despesas das companhias. Para os sindicalistas do setor agrícola, entretanto, a mudança daria melhores condições sociais para inúmeros empregados do tipo "bóia-fria". Fica a expectativa quanto à decisão da Justiça.
O Instituto Agronômico de Campinas, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Piracicaba) e o Centro de Citricultura Sylvio Moreira (Cordeirópolis), órgãos de reconhecida competência, lutaram nos últimos anos para acabar com doenças que afetavam os laranjais, especialmente o cancro cítrico, e estão vencendo. Sorte dos produtores de laranja e das empresas processadoras de suco.
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, hoje na Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, nasceu no Centro Sylvio Moreira de pesquisa, instalado em Cordeirópolis, na beira da Via Anhangüera: seu pai, agrônomo, trabalhava lá. Em sua gestão como ministro do governo Lula, de 2003 a 2006, ele prosseguiu a luta para valorizar a laranja e os produtores. No mundo, há várias bebidas industrializadas que, hoje em dia, concorrem com o suco de laranja, aquele que, lá fora, tem um sabor não tão agradável quanto o suco tomado em qualquer restaurante ou bar do Brasil e rico em vitamina C.
Apesar de tudo, a laranja ainda é um ótimo negócio para a balança comercial brasileira. Balança? Sim: a laranja está na balança, mas também na gangorra.
Foto Laranja/Stock
23/08/2010